18/08 - 14:04hs

"Pelé do vôlei" dá dica a Márcio e Fábio Luiz
De acordo com o norte-americano Kiraly, ouro olímpico deve vir "um passo de cada vez"

Fábio Sormani, enviado especial do iG

 

PEQUIM (China) - A entrevista coletiva depois da partida em que Márcio Araújo e Fábio Luiz bateram os austríacos Florian Gosch e Alexander Herst mais parecia uma reunião entre amigos. Nem parecia que uma dupla tinha vencido (a brasileira) e a outra tinha sido eliminada da Olimpíada. Isso porque os dois brazucas e Gosch são amigos de longuíssima data. Desde 2002, para ser mais preciso.

Foi nesta época que Gosch conheceu a “Muralha”. Tornaram-se grandes amigos. Tanto que o europeu fala muito bem o português, por conta dos tempos que passou no Brasil, treinando nas praias de Fortaleza, Salvador e Rio de Janeiro.

“Adoro o Brasil, adoro as pessoas de lá”, disse Gosch, que insistiu em ser entrevistado na língua de Camões. “Já estive no Brasil mais de 12 vezes”. Nas areias macias das praias brasileiras, acabou conhecendo também Márcio Araújo.

Hoje, no entanto, Gosch vai menos ao Brasil. Tudo porque seu companheiro prefere treinar na Europa. “É mais fácil, pois a distância atrapalha muito”, justificou Herst. “Ele não gosta muito do Brasil”, garantiu Gosch. “De jeito nenhum, adoro o Brasil também, mas é o que eu disse, prefiro treinar na Espanha, na Itália, é muito mais fácil”.

Herst tem razão. As viagens européias são curtas. Trocar de continente é estafante.

Mas a amizade entre os quatro permanece.

Depois do jogo entre eles, quando Márcio dizia adeus a todos os presentes, Gosch interpelou-o: “E a minha camisa?” O austríaco tinha pedido, antes de a decisão das quartas-de-final começar, a camisa verde-amarela ao brasileiro. Márcio tirou-a e entregou-a a Gosch. “Agora eu quero a sua”. O austríaco abriu sua sacola, toda suja de areia, e pegou sua camiseta e deu-a a Márcio. “Agora sim, a troca ficou completa”, brincou o brasileiro.

Apertaram as mãos, trocaram abraço no melhor estilo afro-americano e Gosch falou: “Agora o ouro, hein!”

Se vier, terá um sabor inesquecível para os dois. Afinal de contas, Fábio e Márcio passaram por maus bocados neste ano. Classificaram-se para Pequim na bacia das almas, pois gastaram o primeiro semestre deste 2008 praticamente perdendo. Até que chegou a etapa de Marselha do Circuito Mundial: venceram e garantiram a vaga para os Jogos Olímpicos.

Os dois querem, obviamente, atender o pedido de Gosch. Para isso, Márcio revelou que ambos foram conversar com Karch Kiraly.

Abro um parêntese para contar para você, que não sabe, que o norte-americano é o único jogador a conquistar o ouro olímpico no vôlei de quadra (84 e 88) e de praia (96). É considerado o Pelé do voleibol. E está aqui em Pequim.

Dizia eu que os dois brasileiros foram conversar com Kiraly. Assim foi a rápida conversa entre eles:

“Como a gente faz para ganhar a medalha de ouro”, perguntou Fábio para Kiraly.

Do alto de sua competência, o norte-americano foi curto e grosso:

“Um passo de cada vez”.

E é exatamente isso o que esta dupla brasileira está fazendo. Primeiro foi conseguir a vaga para Pequim; depois, classificar-se na chave; na seqüência, avançar nas oitavas-de-final; agora, o jogo das quartas; depois de amanhã será a vez da semi.

“É assim que a gente está trabalhando”, disse Márcio. “Como ensinou Kiraly, um passo de cada vez. Não pensamos jamais além disso”.

Por isso mesmo, quando Gosch disse a Márcio que queria o ouro, o brasileiro nada respondeu.

Um passo de cada vez.

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