18/08 - 04:32hs

Natureza fez Escadinha se esborrachar na quadra diante da Alemanha
Serginho ficou caído por pouco mais de três minutos, para desespero dos outros jogadores

Fábio Sormani, enviado especial do iG

PEQUIM (China) - Serginho Escadinha nunca teve medo de nada na vida. Viveu muita coisa apesar de ter apenas 32 anos.

A história dele muitos conhecem, mas se você é daqueles que fazem parte da outra turma, não me incomodo em contar-lhe rapidamente um pouco da vida deste paulistano do bairro de Pirituba.

Serginho teve vida difícil. De tudo fez um pouco. Foi Office-boy, pregou papel em parede, trabalhou em supermercado como empacotador e foi também vendedor ambulante.

Casou cedo. A vida a dois, no começo, foi igualmente complicada. Ao lado da mulher vendia água sanitária nas ruas de São Paulo.

Até que aos 22 anos começou a jogar vôlei pra valer, a partir de um convite feito pelo São Caetano. Bem, depois vieram os tempos de glória, dos títulos e da ascensão profissional.

Deu para ter uma idéia de quem é Escadinha?

Ah, curioso você quer saber a origem do apelido. Eu conto: ele veio em alusão a um traficante carioca dos anos 1980, por causa do excesso de gírias que compunham – e ainda compõem – o seu vocabulário.

Sabe-se que ele não gosta muito. Mas pegou, embora nas costas de sua camisa apareça o “Serginho”.

Conto tudo isso para dizer que um cara que passou por muitos apuros na vida, a última coisa que ele iria fazer naquela bola boba que ele tentou recuperar e se esborrachou no chão era afinar.

Mas que falta de inteligência! – foi isso o que os jornalistas brasileiros disseram quando viram Serginho desabar atrás de uma placa.

Ele é o único líbero que temos! – desesperaram-se estes mesmos jornalistas.

O jogo contra a Alemanha, vencido por 3-0 (25/22, 25/21 e 25/23), pouca coisa valia. Mas para Serginho jogo é jogo, sempre. Foi assim em toda a sua vida; nada foi fácil e nada caiu do céu. Portanto, acostumado a ir à luta desde sempre, ele se jogou naquela bola.

“Como é que eu vou contrariar a natureza de uma pessoa?”, respondeu o técnico Bernardinho depois de ser questionado sobre o gesto impulsivo de seu líbero. “Não tem o que falar para ele”.

Serginho ficou caído por pouco mais de três minutos. Os jogadores que estavam em quadra correram em sua direção, apavorados por não verem o companheiro levantar-se. O árbitro da partida, o chinês Jiang Liu, pediu para se fazer a substituição e reiniciar o embate rapidamente.

Giba, o capitão brasileiro, olhou para o árbitro e soltou um palavrão, indignado com a frieza do chinês. Todos que estavam no BIT Gymnasium ouviram. Ainda bem que o juizão não entendeu.

Serginho levantou-se depois desses minutos mencionados e voltou a jogar. Foi aplaudido por todos. Mas o braço, na altura daquele ossinho que fica na munheca, estava sangrando, cortado que foi por causa do tombo.

Mas isso não foi o pior. “Quando caí, o joelho estalou e eu fiquei assustado”, disse ele. Sabe por quê? Porque foi exatamente o joelho que ele operou no ano passado. “Doeu pra c...”, admitiu.

Mas ele voltou. Voltou porque não sabe o que é desistir.

Sua vida sempre foi assim.

(Cá entre nós, ainda bem que nada aconteceu, porque senão o texto teria outro enfoque)

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