11/08 - 11:25hs

Ketleyn Quadros largou a natação para fazer história no judô
Judoca foi a primeira mulher da história a conquistar uma medalha olímpica individual para o Brasil

Fábio Sormani, enviado especial do iG

 

PEQUIM (China) – O dedão do pé esquerdo de Ketleyn Quadros é mais projetado do que o direito; e mais espaçado também em relação ao seu vizinho se cotejado com o outro pé. Já o dedo indicador da mão direita está inchado na primeira junta, fruto de uma das várias lutas que Ketleyn tem feito. Na Vila Olímpica aqui em Pequim, ela é conhecida também por sua força, maior do que de muitos homens; é fortona, reflexo dos anos a fio em que puxa ferro para ficar cada dia mais forte.

Nada disso, todavia, a deixa menos feliz. Infeliz, aliás, é palavra que não existe no dicionário desta brasiliense. Sabe por quê? Porque ela sempre fez o que quis. Nasceu assim.

Tinha apenas oito anos de idade quando a mãe, todos os dias, a deixava no Sesi de Ceilândia, cidade satélite de Brasília, onde nasceu; mas para fazer natação. O caminho até a piscina do clube passava pela sala do judô. A menininha ficava impressionada com a beleza do esporte e parava para ver o pessoal lutando. Gostava tanto do que via que ali ficava. E acabava por perder a aula de natação.

Como sempre fez o que quis, não sossegou enquanto não convenceu a mãe a trocar de esporte. Rosimeire, a mãe, deixou, mas a contragosto. E usou a seguinte tática para devolver a menina à natação: vai, minha filha, mas quimono que é bom eu não te compro. Ou melhor, pra não ser tão severa com a filha, comprou um, mas de saco, achando que a filha iria desistir com a feiúra do uniforme. Mas como Ketleyn não sabe o que é ser infeliz, nem ligou. Vestiu o quimono de saco e foi para a primeira aula de judô.

O resto é história e todos, neste momento, sabemos de cor. Ketleyn conquistou a primeira medalha olímpica feminina no judô.

Cercada por vários repórteres num dos corredores internos do ginásio da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim, entre muitas perguntas, escutou a seguinte: “Como é que você se sente não sendo mais qualquer uma?” Sabe o que ela respondeu? “Eu nunca me senti uma qualquer”.

A resposta foi rápida, assim como seus movimentos no tatame. E determinada também. Ketleyn é assim: determinada. Por isso mesmo, não hesitou ou questionou seu primeiro treinador, lá no Sesi de Ceilândia, quando ele disse: “Menina, você não vai ser modelo, certo? Você quer ser judoca, não é mesmo? Então você precisa ficar forte. Vai ter que fazer musculação”.

Ketleyn disse tudo bem; e na mesma hora começou a puxar ferro.

Pensa que ela se incomoda com a musculatura definida, que muitos reprovam num corpo feminino? De jeito nenhum. Ketleyn nunca brigou com seu corpo. Só briga com as oponentes no tatame. Quando alguma companheira judoca se prepara para sair e evita usar uma blusa com alcinha porque fica parecendo mais forte ainda, Ketleyn dá de ombros e ri quando vê as amigas colocarem uma camiseta baby look. Ela nem se importa e, quando quer, coloca a blusa de alcinha e sente-se a mulher mais linda e feliz do planeta.

Assim é Ketleyn: um ser-humano bem resolvido. Daquele tipo de gente que não tem qualquer problema com a auto-estima. Sente-se feliz 24 horas por dia. Não tem raiva de ninguém, nem do pai que separou-se da mãe quando ela tinha apenas quatro anos. Fala com ele sempre que pode, mas o contato não é intenso. Tanto que ela nem sabe quantos meio-irmãos tem.

E por falar no pai, Kleber, foi ele quem a batizou como Ketleyn. Qual a origem do nome? Ela diz que foi inspirado por uma artista de cinema que o pai gostava muito. Kahtleen Turner? Ela não sabe. Pergunto o que ela acha do nome.

– Adoro o meu nome.

Você acha que a resposta seria outra?

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