10/08 - 07:26hs
Derly: derrotado, mas ainda um campeão
"Sei que tinha muitas pessoas torcendo por mim e eu desapontei a todos”, afirmou o judoca brasileiro
Fábio Sormani, enviado especial do iG
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PEQUIM (China) - Quando o português Pedro Dias perdeu para o norte-coreano Chol Min Park, o mundo de João Derly desabou. Candidatíssimo ao ouro olímpico, o bicampeão mundial da categoria meio-leve ainda tinha esperanças de conquistar uma medalha. Com a derrota do judoca patrício, que já havia destruído o sonho dourado ao bater o nosso João na segunda rodada, o gaúcho voltará para casa, na próxima terça-feira, com as mãos vazias.
Assim que tudo acabou, João, na sala de aquecimento dos atletas, onde tinha visto a luta do português pela televisão, pegou o celular e ligou para a família em Porto Alegre. Falou com a mulher e os pais. Recebeu, como não poderia deixar de ser, apoio de todos. Agüentou firme; não chorou. Desligou o telefone. A seu lado, o celular do chefe da equipe, Nei Wilson, tocou logo em seguida. Era a assessora de imprensa do COB, Manuela Penna, perguntando se João poderia falar com os jornalistas.
– E aí, João, a imprensa quer falar com você – perguntou Wilson.
– Preciso de um tempo – respondeu Derly.
Cerca de um quarto de hora depois, Manuela ligou diretamente para o celular de João.
– João, a imprensa está aqui te esperando – avisou.
– Tudo bem.
Cinco minutos depois, João apareceu num dos corredores que dão acesso à arena de judô da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim. Formou-se rapidamente uma aglomeração. Eram os repórteres que o cercaram. Improvisou-se ali uma entrevista coletiva, para desespero dos voluntários que tentavam, inutilmente, desbloquear o corredor.
Vestindo o agasalho do COB, mãos para trás, chegou sem jeito, constrangido e sem graça. Respondeu com atenção e muita educação a todas as perguntas. Pouco à vontade, tirava as mãos das costas, cruzadas, e colocava nos bolsos. Não estava confortável ainda. Tirava da algibeira e cruzava na frente. Depois, mexia na aliança. Jamais encontrou a posição do conforto. Nem dava, seu mundo tinha realmente desabado.
De repente, para surpresa dos repórteres, ao final de uma das tantas perguntas que respondeu, Derly disse: “Peço desculpas a todos vocês pelo meu resultado”. Desculpas pelo quê? Todos ficaram espantados; até porque estamos acostumados a trabalhar com jogadores de futebol, e a última coisa que passa pela cabeça de um jogador de futebol é pedir desculpas por um engano esportivo. João o fez.
A simplicidade e a espontaneidade contagiaram a todos nós, jornalistas. Muitos o consolaram. “Que é isso, João, você é um campeão”, encorajou um; “Levanta a cabeça, cara, perder faz parte do jogo”, sugeriu outro, apoiando-se no lugar comum. “Você não tem nada que se desculpar, João, você não tem dívida alguma com a gente”.
Verdade, mas não era assim que João pensava. “Sei que tinha muitas pessoas torcendo por mim e eu desapontei a todos”, afirmou. O resto do discurso ficou preso na garganta. Ele desabou em lágrimas. Pediu desculpas novamente por estar chorando.
Ele já quase que não falava mais, emocionado com a situação. Por isso, aos poucos, os repórteres foram tomando o caminho da roça. Havia não mais do que cinco a cercá-lo dos quase vinte que o cercaram quando uma chinesinha aproximou-se dele e num inglês rudimentar falou:
– Eu gosto muito de judô e sei que você é um campeão. Você poderia me dar um autógrafo? I love you so much (eu te amo demais).
Surpreso, João disse que sim; e assinou o papel que a torcedora entregou-lhe. Voltou-se para os poucos jornalistas que presenciaram a situação, sorriu timidamente e falou: “Puxa vida, logo depois de eu ter perdido para o português, um torcedor pediu para tirar uma foto comigo. Agora vem essa menina. Eu não sou merecedor nem de tirar fotos e nem de dar autógrafos”.
Em seguida, agradeceu a todos, despediu-se e foi embora.
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