19/08 - 15:06hs
Perder para o Chile é a única salvação para o nosso futebol
Derrota no próximo jogo das Eliminatórias pode fazer com que técnico do Brasil perca o seu cargo
Fábio Sormani, enviado especial do iG
PEQUIM (China) - Dunga e a seleção brasileira continuam a castigar o Brasil. O que se viu esta noite aqui em Pequim foi de envergonhar qualquer um que gosta de futebol. Não foram apenas os brasileiros que se sentiram humilhados, os fãs do nosso futebol também. Isso ficou claro na expressão de grande parte dos 59.968 torcedores que assistiram ao jogo semifinal dos Jogos Olímpicos no Worker´s Stadium.
O Brasil foi um time covarde em campo nesta derrota por 3-0 para a Argentina. Jogou na retranca o tempo inteiro, temendo a Argentina, nosso grande rival, de quem a gente mais gosta de ganhar. Humilhou a todos nós por isso. Deixou-nos apatetados com a postura medrosa do time.
O futebol brasileiro não foi cultivado para jogar dessa maneira. Quando se vê uma equipe frágil adotar essa postura, tentando segurar o adversário para, quem sabe, fazer um gol no contra-ataque ou numa bola parada, a gente entende. O time é fraco e só tem essa alternativa. Mas não é o caso do Brasil. Jogar assim!, ora, faça-me o favor! Incompreensível.
É como se o time norte-americano de basquete jogasse na retranca. Sim, é a mesma coisa. O basquete americano foi cunhado para jogar bonito e dar espetáculo. Foi sempre respeitando suas características, sua história ofensiva, que os EUA conquistaram o mundo do basquete. Defendem, é verdade, como Dunga quer com a seleção brasileira, mas eles não se esquecem de atacar. Jamais.
Aliás, os norte-americanos defendem com uma fúria incrível para ter a bola nas mãos. O Brasil de Dunga se defende e quanto tem a bola nos pés não sabe o que fazer com ela.
Nesta derrota para a Argentina, Dunga cometeu equívocos táticos ao definir o Brasil nesta partida. Se acertadamente colocou Lucas em Riquelme e Anderson em Messi, errou ao escolher Hernanes para ficar livre. O volante são-paulino foi um desastre em campo. Ele não joga assim no São Paulo; lá ele faz o volante que inicia a organização ofensiva do time, mas não é ele quem dá o toque final do ataque tricolor. Deveria ter sido substituído ainda no primeiro tempo. Só o foi aos 15 minutos do segundo.
Dunga colocou Tiago Neves em seu lugar, mas ao invés de posicionar o talentoso meia do Fluminense à frente, obrigou-o a trabalhar como um volante tambéml lá atrás. Ora, perdendo por 2-0, com dois volantes em campo, a substituição fez muito sentido; o posicionamento de Tiago Neves é que não fez.
Com Lucas e Tiago Neves como volantes e Hernanes vigiando Di Maria, outra coisa que não fez sentido foi não liberar os dois laterais ao mesmo tempo. Quando Rafinha subia, Marcelo ficava; e vice-versa.
O mundo está careca de saber que o futebol brasileiro gosta de jogar pelas beiradas. E os nossos dois laterais foram contidos por Dunga. A quebrada de jogo demorava para acontecer, pois o lateral estava lá atrás, fazendo não sei o quê. Ou melhor, claro que sei, eles ficavam porque tinham a responsabilidade de fazer a cobertura dos dois zagueiros que marcavam apenas um atacante – e que atacante, pois Aguero fez dois dos três gols da Argentina. Pra que três marcando apenas um?
Outra barbaridade foi Isolar Rafael Sóbis à frente. Ficou perdido entre os dois zagueiros argentinos, pois Diego e principalmente Ronaldinho Gaúcho nada fizeram em campo. Esses dois, aliás, já encheram demais a paciência de todos nós.
Diego não leva jeito para atuar na seleção brasileira. Futebol curto, burocrático, sem qualquer imaginação, de poucas ou nenhuma finalização a gol; em campo pra quê? Quanto a Ronaldinho Gaúcho, bem, esse para mim parece caso perdido. A impressão que dá é que ele viveu apenas aquela fase extraordinária no Barcelona e agora volta a jogar o que de fato joga. Ou seja: nada.
Em Cingapura, enquanto preparava a seleção para os Jogos Olímpicos, em 25 de julho passado, Dunga, conversando com os jornalistas, decretou: “O futebol é diferente para o brasileiro. E o fato de ainda não termos essa medalha de ouro aumenta ainda mais a pressão em todos nós. Mas isso é algo que o jogador de seleção está acostumado. Se ganhar, vem a glória. Se perder, a pressão será grande", disse, para completar: “Só o outro interessa”.
Fracassou.
O bronze é a oportunidade derradeira de uma medalha. Pode ajudar o Brasil a subir no quadro geral, mas não serve nem de consolo. O nível técnico do futebol nos Jogos Olímpicos é muito baixo. A seleção perdeu para o único adversário decente que enfrentou na competição. Ou seja: acabou em último. É esse o significado que o bronze – se vier – terá para todos nós.
Na entrevista coletiva após o massacre argentino, perguntei a Dunga qual o reflexo que esta tunda teria no trabalho dele como comandante do time brasileiro. Afinal de contas, ele fracassou na promessa de dar o ouro para o Brasil.
Disse ele: “Com a derrota começará a pressão e o questionamento. Mas o importante é manter a convicção. É nesse momento que a gente vê cada um. Tem que ter frieza para tentar reagir. Não é fácil ficar esse tempo todo trabalhando. Não houve problema algum com o grupo. Queria coroar com uma vitória, mas não deu. Temos que reagir”.
Ou seja, mesmo muitíssimo abatido na entrevista coletiva, Dunga não dá sinais de que vai deixar a seleção. Mas a seleção é que pode deixar Dunga.
O time fracassou aqui em Pequim. Está em quinto lugar nas eliminatórias sul-americanas. Teria que disputar a repescagem se a competição terminasse agora.
No dia 6 de setembro a equipe viaja para Santiago para enfrentar o Chile. Outra derrota e Dunga deve ser demitido. Ninguém agüenta mais. Parece que nem mesmo Ricardo Teixeira, presidente da CBF, que adora segurar treinador incompetente no cargo.
O que mais se comenta aqui em Pequim é que a chance derradeira de Dunga será em Santiago. Se perder para o Chile, Wanderley Luxemburgo assumirá a seleção.
Luxa sempre foi o objeto de consumo de Teixeira. Deixou a seleção na época em que o futebol brasileiro vivia tempos de CPIs do esporte e ele também tinha problemas com essas comissões.
Hoje, eles parecem estar solucionados. Nada respingaria, pois, sobre a CBF. Teixeira odeia holofotes.
É duro torcer contra, mas do jeito que está, o melhor negócio para a seleção é ela perder para o Chile no dia 6 de setembro.
Perde hoje; ganha amanhã.
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