15/08 - 09:22hs
Se não mudar de rumo, basquete feminino encontra o masculino no fundo do poço
"Ai que saudades do tempo da Paula e da Hortência", desabafou a ala/pivô Ega, de 30 anos
Fábio Sormani, enviado especial do iG
PEQUIM (China) - “Ai que saudades do tempo da Paula e da Hortência. Naquela época, as jogadoras não saíam do Brasil. Ao contrário, muitas estrangeiras com qualidade iam jogar lá”.
O desabafo é da ala/pivô Ega. Trinta anos, uma das mais experientes do grupo, Ega chorou depois do jogo, durante a entrevista coletiva e após também. Disse dever tudo ao basquete. “Se não o fosse o basquete, hoje eu estaria trabalhando como empregada doméstica ou caixa de supermercado”, revelou a ala/pivô brasileira.
A tristeza de Ega não era apenas pela eliminação do time na derrota diante da Rússia por 74 a 64. A tristeza, como se viu pela declaração dela, é pela falta de estrutura do basquete brasileiro. E, ao contrário dos tempos de Paula e Hortência, que ela mencionou, quando tínhamos campeonatos bem organizados e empolgantes, hoje as nossas jogadoras, em grande parte, deixam o País para sobreviver, pois a situação do basquete feminino brasileiro é de penúria.
“A gente fica triste por ter que ir para o exterior”, disse Ega, jogadora do Mannfilter da cidade espanhola de Zaragoaza. “Uma temporada fora, viver uma nova cultura, conhecer gente e lugares é legal. Mais do que isso é complicado. Tinha que ter uma organização melhor”.
E o reflexo disso não ataca unicamente o coração de quem sai. Agride também a parte técnica das atletas. “Na Europa, o jogo é mais quadrado, eles não têm a espontaneidade nossa”, disse Ega, “Quando a gente chega para jogar com a seleção, está completamente sem o ritmo do nosso basquete”.
Teria isso influenciado no baixo rendimento do time aqui em Pequim? Pode ser, mas não importa. A discussão, no momento, não é essa.
É difícil segurar as principais jogadoras no País; todos nós sabemos. Afinal de contas, o euro vale duas vezes e meia mais do que o real. Mas se o basquete estivesse estruturado, a situação poderia ser diferente. Se houvesse investimento, muitas jogadoras poderiam ficar por aqui, pois os times teriam condições de pagar mais do que pagam.
“Muitas atletas dizem pra mim: ‘Paulinho, se a gente ganhasse um pouco menos no Brasil, eu voltaria’. Eu sei que elas não querem deixar o País”, disse o técnico da seleção, Paulo Bassul.
Pois é, como investir num produto que praticamente não existe? Quem vai querer colocar seu dinheiro numa modalidade esportiva que não tem praticamente qualquer retorno de mídia? Os campeonatos nacionais, sejam masculinos ou femininos, são mal organizados e mal embalados. Portanto, não tem apelo qualquer junto às empresas, junto a quem tem dinheiro para investir.
“Visibilidade é que traz dinheiro”, disse Bassul. E como não há visibilidade, a saída, segundo o treinador brasileiro, é o governo criar uma lei de incentivo ao esporte, nos moldes da que existe na cultura. “Hoje a Lei Piva dá dinheiro para o esporte, mas ele vai para as confederações”, lembra Bassul. “Ele tem que chegar é na mão de quem forma, que são os clubes”.
E como não chega, esses mesmos clubes, de uns tempos para cá, apenas formam jogadoras. Aproveita muito pouco de seu investimento, pois acontece no basquete o mesmo que no futebol. Quando as atletas atingem a idade adulta, quase sempre deixam o país. E isso trará dificuldades grandes no futuro. “A falta de espelho (jogadoras no País) dificulta a formação de novos atletas”, afirma Bassul.
Verdade, pois o basquete não é como futebol, a menina dos olhos do povo brasileiro. Por ser esporte de aceitação nacional, o investimento ocorre de um jeito ou de outro. O mesmo não se dá com o basquete.
Portanto, se o rumo não for corrigido, o basquete feminino tomará o mesmo caminho do masculino: o fundo do poço.
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