16/08 - 13:19hs
O solo do homem mais veloz do mundo
Correndo para valer em apenas 80% da prova, Usain Bolt fatura o ouro com recorde mundial nos 100m rasos
Por Mauricio Teixeira, especial para o iG Esporte
- Direto de Pequim: Adrenalina de Bolt empolgou estádio
- "Bolt é o maior sprinter de todos os tempos", afirma Asafa Powell
- Usain Bolt confirma que comemorou antes do final dos 100m
PEQUIM (CHINA) - Quando cada um dos noventa e um mil torcedores que lotaram o Estádio Ninho de Pássaro teve o canhoto de seu ingresso destacado na entrada, esperava ver um duelo de gigantes entre um norte-americano e um jamaicano. Mas o que se viu em Pequim na histórica noite de 16 de agosto de 2008 foi uma apresentação solo do novo mito do atletismo mundial: Usain Bolt.
| Reuters |
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| O novo homem mais rápido do mundo posa ao lado de sua marca |
O jamaicano venceu os 100m rasos com o tempo de 9.69 segundos, novo recorde mundial da prova. E poderia ter sido ainda melhor o tempo, não fosse Bolt um artista das pistas. Entre baixar mais a sua marca, que ele pode fazer a qualquer momento, e entreter os bilhões de espectadores de sua façanha, ele escolheu o segundo. Virou-se de lado quando percebeu que ia ganhar e atravessou a linha de chegada gritando e batendo a mão no peito, levando ao êxtase o estádio. Mesmo assim, chegou uma eternidade à frente do segundo colocado, Richard Thompson, de Trinidad & Tobago, e de quebra tornou-se o primeiro ser humano da história a correr abaixo de 9.70. Walter Dix, dos Estados Unidos, ficou em terceiro.
"Não foi planejado", disse aos jornalistas depois de sua volta olímpica, sobre a chegada comemorando. "Eu vi meu tempo, fiquei muito feliz e não consegui me conter", falou rindo o atleta, 'especialista' em 200 metros rasos que há 13 meses resolveu pedir ao técnico para tentar correr os 100 também para ver no que daria.
"Ele esteve impecável esta noite. Poderia ter corrido muito mais rápido se tivesse ficado de frente a corrida toda", disse o compatriota Asapha Powell aos jornalistas na saída. Powell ganhou o status de único com chances de bater Bolt após a eliminação de Tyson Gay nas semifinais, mas sequer subiu ao pódio.
Para entender o passeio dado pelo corredor jamaicano é preciso voltar duas horas no tempo. Usain Bolt entrou para disputar a primeira bateria das semifinais dos 100m rasos como sempre, relaxado. Ajoelhou, fez o seu habitual sinal da cruz, largou e voou.
| Reuters |
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| Velocista se deu ao luxo de "parar de correr" para festejar nos últimos metros |
Mais uma vez, freou no final, olhando para o lado direito, de um jeito que já deu para ver que é dele e de mais ninguém. Com 9.85s, um centésimo atrás do recorde olímpico, jogava pressão para o adversário maior Tyson Gay, na segunda bateria, e ainda deixava a certeza de que o tempo seria brilhante quando fosse para valer.
Pois a pressão parece ter sido demais nos ombros daquele que era para ser o outro protagonista da festa. Tenso desde o início, o norte-americano fez decepcionantes 10.05s, ficou em quinto lugar na sua bateria e em nono no geral. O maior rival na luta pelo ouro do risonho jamaicano fenômeno estava fora de combate.
Ninguém entendeu nada. Nem o próprio Gay. "Não sei o que aconteceu. Eu estou na minha melhor forma. Não tenho desculpa alguma para dar", disse, chateado, mas atencioso com os jornalistas na zona mista.
Mas esqueça o perdedor. Com o que aconteceria depois no Ninho de Pássaro, Gay apenas poupou-se de vexame maior. Com a saída do norte-americano da disputa, a medalha de ouro já tinha dono. Restava apenas um último combate, que era Usain Bolt x Usain Bolt. Como ele freou nos últimos metros nas outras vezes todas que correu, e mesmo assim triscou o recorde olímpico, a única 'decepção' possível para a platéia seria o jamaicano não bater seu próprio recorde mundial.
Para isso, ele seguiu o ritual. Ao ser apresentado pelo telão, fez com os dedos a espécie de losango na frente do peito para o público. Desta vez, mostrou um pouco mais de marra ao dar uma flechada virtual no ar. Ele tinha certeza do que estava fazendo. Ajoelhado, benzeu-se pela última vez antes de virar um campeão olímpico.
Boooom! A arma disparou e Bolt largou forte, seguiu no ritmo dos outros até 40 metros, abriu muita dianteira até os 80 e, mais uma vez, deu seu show. Comemorou antes, bateu no peito e passou a reta praticamente de lado. O tempo cravava 9.68, depois corrigido para 9.69. Novo recorde mundial, para delírio de uma platéia alucinada.
Sabe-se lá que tempo Bolt teria feito caso não parasse de correr no final. Sabe-se lá qual será o limite deste jamaicano. Sabe-se, sim, que Pequim viu, nesta noite, a mais espetacular final dos 100 metros rasos nos últimos 20 anos. E viu a história do homem contra o tempo ganhar seu mais importante capítulo até aqui.
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