O beabá da etiqueta social

O beabá da etiqueta social Por Cristiana Vieira São Paulo, 06 (AE) - Tem gente que nasce com o gene da elegância. Outros tentam "adquiri-lo" em aulas de boas maneiras, nas quais aprendem a se portar, a arte de receber bem e até como evitar gafes.

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O beabá da etiqueta social Por Cristiana Vieira São Paulo, 06 (AE) - Tem gente que nasce com o gene da elegância. Outros tentam "adquiri-lo" em aulas de boas maneiras, nas quais aprendem a se portar, a arte de receber bem e até como evitar gafes. Há, ainda, quem fuja de regrinhas, por vezes ultrapassadas, e busque um diferencial no comportamento. É quando toca o telefone de Christine Yufon, uma chinesa de coração brasileiro, que há mais de quatro décadas vem encantando alunos da alta classe paulistana com uma aula de etiqueta que foge do convencional. Engana-se quem pensa que vai ter o bê-á-bá na primeira aula. De cara, Christine dá uma lição de vida, contando um pouco da sua história e falando sobre valores. "Se eu dissesse que minha aula é de filosofia, não haveria nenhuma interessada. Mas, no fundo, é isso o que cada uma aprende", diz a elegantíssima senhora de olhos marcantes e postura formosa. E para que ninguém saia da sua aula inaugural sem sentir o gostinho do que virá pela frente, Christine bota as pupilas para desfilarem pelo seu tapete vermelho. Impossível não perceber uma certa tensão. Mas a experiente professora age naturalmente e analisa cada passo, o peso da pisada, o equilíbrio, o rebolado e detalhes que, até então, eram imperceptíveis para cada uma. O diagnóstico é personalizado e vem com dicas de como realçar o que se tem de bonito e até como usar aquilo de que não se gosta. Vinda de uma família tradicional do Paraná, que valoriza a etiqueta, Michelle Caetano procurou Christine para ser "lapidada". "Não esperava uma aula de filosofia da boa postura, mas acho importante perceber que a etiqueta vem de dentro para fora", conclui a jovem. Depois da primeira aula em grupo, Michelle passou a ter aulas particulares. "Ela é a grande mestre da etiqueta no Brasil. As mulheres by Cristine Yufon têm algo a mais que as outras." Já Marlise Angelino, que se matriculou no curso com a intenção de arrastar a sobrinha, achou que seria uma aula mais dinâmica. "Gosto mais da prática do que da didática." INTERIOR As boas maneiras da publicitária baiana Rosana Boaventura, que mora em São Paulo há 18 anos, vieram do berço. Mas ela sempre sentia que ainda lhe faltava algo. "Acho importante saber andar, sentar, comer. Tudo isso é um conjunto de técnicas e modos que precisamos ter. Mas essas coisas eu já tinha", declara. Quando uma amiga comentou sobre o trabalho de Christine, Rosana achou que era exatamente o que procurava. Lá foi ela com sua filha Mirela. "Já sabia usar garfo, faca e taças. Faltava saber receber com simplicidade, sem ostentar o que está por fora, mas sim por dentro." Quando Christine surgiu diante delas, Rosana percebeu que o melhor estava por vir. Queria mesmo é andar e falar como a mestre. Aprendeu a fazer tudo isso com tolerância para construir sua própria imagem. Durante as aulas, ouviu coisas que não esperava, como, por exemplo, que a mulher tem de vestir a roupa com alma, usar sua beleza, falar com calma e pausadamente. "Era o que faltava na minha formação como mulher e, para a minha menina, que está se formando mulher", diz, empolgada. "Christine passa valores de vida, que precisam estar em muitos cardápios", completa, com seu peculiar e charmoso sotaque. Aprender a não exigir de si o que há no outro foi a marca que Christine lhe deixou. "Posso comer acarajé na praia ou frequentar um lugar sofisticado que terei a elegância adequada para cada situação", diz, orgulhosa, depois de ter explorado sua essência e personalidade dentro de uma proposta de etiqueta. Sua filha Mirela também gostou da experiência. "Serviu para nós duas, em nossas respectivas idades", diz a jovem de 18 anos. Para ela, o que ficou marcado é que a base da etiqueta é a delicadeza. POSTURA CERTA A mãe da designer gráfica e cantora Renata de Souza Py, de 32 anos, sempre quis que ela fizesse um curso de boas maneiras. Mas, na juventude, Renata achava aquilo uma futilidade. "Christine não ensina simplesmente como segurar uma taça, mas sim como ter postura nos movimentos", diz a designer. Aprendeu a andar com elegância, a manter a postura ereta naturalmente, a se expressar com as mãos e, principalmente, a se sentir mais bonita. "Estou mais segura e feliz", comenta, admitindo que, antes do curso, estava numa fase "largada". A professora de etiqueta Christine Yufon tem um sotaque carregado de quem viveu muitos anos na Inglaterra, pois ainda mistura português com inglês, como se uma língua fosse complemento da outra. Passou grande parte da vida como instrutora de modelos e de misses, e até hoje ensina o que chama de postura visual, "que toma forma no interior e reflete na aparência". Em suas aulas, faz das alunas peças que estão sendo moldadas, integrando corpo, mente e alma. Seu objetivo, conta, é "ensinar a aproveitar a essência e a força interior, para que cada aluna encontre o equilíbrio não só na passarela, mas também na vida." BOXE 1 LIÇÃO DE CASA - Seu dia de cometer uma gafe vai chegar. Quando acontecer, o melhor a fazer é mudar de assunto e agir com naturalidade. - Em uma recepção, a mesa deve ser acolhedora, agradável e bonita. Os anfitriões sentam-se à cabeceira ou ao meio dela. O convidado de honra fica à direita da anfitriã, enquanto a convidada, à direita do anfitrião. Quando não houver convidado de honra, esse lugar pode ser cedido ao casal mais idoso. - Sente-se depois de a anfitriã se sentar. - Use os talheres de fora para dentro, ou seja, começando pelos que estiverem mais afastados do prato. - Limpe os lábios antes de tomar qualquer bebida, pressionando levemente o guardanapo contra a boca. - Segure a taça pela haste. - Em um coquetel, sirva-se dos comes e bebes pegando-os com a mão. O guardanapo serve para limpar a ponta dos dedos. - Não é de bom tom servir-se do último salgado que restou na bandeja. - Os talheres podem descansar com o cabo apoiado nas bordas do prato. - Se você é canhota, espere que a comida seja servida para inverter os talheres. - Caroços de uva ou de azeitona podem ser cuspidos delicadamente na mão fechada, em forma de cone, e depois deixados na borda do prato. Assim como espinhas e ossos. - Tem de comer tudo o que está no prato? Quando somos servidos por outra pessoa, não somos obrigados a comer tudo. Mas quando a própria pessoa se serve, deve ter o cuidado de colocar apenas o que vai comer. - No restaurante, ao encontrar amigos ou conhecidos saboreando sua refeição, simplesmente sorria e acene. Nada de interromper a refeição deles. Ao sair, se eles ainda estiverem no restaurante, acene. - É deselegante retocar a maquiagem ou pentear os cabelos em público. Vá ao toalete, recomponha o visual, e volte maravilhosa. - Evite gesticular com algum talher na mão. - Palitos jamais! É deselegante e de mau gosto palitar os dentes na presença de outras pessoas, e devem ser usados no banheiro. BOXE 2 Quebrando o gelo com naturalidade Com um espírito brincalhão e sem delongas, a gaúcha Doris Azevedo quebra um pouco da formalidade e da histeria que se instala em uma mesa repleta de taças e talheres. Como boa questionadora que é, usa o seu incansável "por quê?" para romper regras que se perderam no tempo. Ela ficava indignada por não poder apoiar seus cotovelos na mesa depois de um belo jantar. "Se justificarem, eu sigo", diz. Para ter argumentos, fez uma profunda pesquisa e descobriu que, na Itália Renascentista, o cotovelo era considerado uma zona erógena. Até uma situação que poderia ser encarada como "saia-justa", ela torna divertida. Diz que, quando a empregada convida a patroa para ser sua madrinha de casamento, a madame não pode se vestir simplesinha, porque o que a noiva quer é a poderosa em seu altar. E sabe aquele executivo que, quando chega o fim de semana, bota o chinelão e a camiseta da eleição passada? Ela acha que, mesmo em casa, todos devem vestir uma roupinha bacana. Mais: dizem que, no restaurante, é o homem quem se dirige ao garçom. "Mas nós não somos retardadas!" Para Doris, tudo é possível quando feito com naturalidade. "A gente tem de conhecer o que é certo e relaxar." O mínimo que a pessoa tem de conhecer é a educação. Usar palavrinhas como "por favor", "com licença" e "obrigada" já é um começo. "Não se preocupe com regras. Ser gentil é o fundamental." (C.V./AE)

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