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Editorial: Os pinguins do Brasil

30/11 - 09:40 - The New York Times

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RIO DE JANEIRO - Eu coloquei meu guarda-sol e minha cadeira perto da água no começo da manhã do que logo seria um perfeito dia de verão. Como a maioria das pessoas, eu prefiro quando a praia está deserta e eu tenho o lugar todo para mim, sem vendedores à vista, desfilando óculos de sol e bronzeadores, bebidas, sanduíches ou doces oferecidos em vozes cantadas. Acima de tudo, nenhuma criança chutando bolas ou areia no meu rosto. Eu segurava um livro que pretendia seriamente ler.

No entanto, eu vi uma pequena forma emergir da água. Ao chegar em terra firme, eu notei que agitava suas asas com fraqueza. Tudo a respeito do pequeno ser, da lentidão de seus movimentos à sua óbvia fraqueza e vulnerabilidade, me dizia que ele não estava ali por opção.

Um pinguim? Na praia de Ipanema? A criatura estava a poucos metros de mim e andando na minha direção. Por um momento, eu tive a ilusão de que olhava direto para mim. Sim, um pinguim. Eu olhei para trás à procura de testemunhas, sentindo que um evento deste tipo merecia uma plateia maior.

Um corredor logo apareceu, seguido por outro. Eles pararam ao meu lado, pasmos, e durante alguns segundos nós permanecemos em silêncio. O pinguim produzia um som de respiração delicado. O primeiro corredor olhou para o mar e disse, "Coitado, tão longe de casa". O outro sujeito riu disto. Nosso filósofo se ofendeu e, por algum tempo, o silêncio tomou conta novamente.

O pinguim caiu de lado. Ele havia nadado mais de 3.000 quilômetros em sua normal busca por anchovas possivelmente confundida pelas mudanças nas correntes e temperaturas oceânicas. Ele não sobreviveria na areia quente.

Os corredores olharam para mim, como quem espera por ordens. Então um deles murmurou: "Eu moro aqui perto. Posso pedir ajuda".

Quando os bombeiros chegaram, eu me senti aliviado que o episódio logo acabaria. Para minha surpresa, porém, a separação foi um pouco dolorosa. O desconforto vinha da percepção de que algo fora do comum, mas difícil de entender, havia acontecido naquela praia. "Você pode vir visitar no jardim zoológico", um dos bombeiros brincou ao notar meu ar mau-humorado. Aquele ser delicado, desamparado, deslocado havia subitamente me feito entender nosso impacto no planeta.

Isto aconteceu um tempo atrás e se mostrou apenas o começo de uma migração de pinguins sem precedente para o Brasil. Nos anos seguintes, dezenas e depois centenas de pinguins de cores cinza e branco apareceram nas nossas costas, vindos da Patagônia e do Estreito de Magalhães. Eles chegavam às nossas areias, exaustos e famintos, e eram imediatamente rodeados pelas crianças e mulheres de biquínis. Alvos de curiosidade e afeto, eles frequentemente morreram nas mãos daqueles que tentaram ajudar os colocando em refrigeradores ou os levando para passear em coleiras.

Mas esta preocupante história não termina aqui: alguns destes pinguins foram transportados de navio ou avião para águas mais frias ao sul. E, conforme eu penso sobre como eles se sentem a respeito desta viagem, continuo esperando que sua saga nos ajude a entender a nossa.

- Edgard Telles Ribeiro

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