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Conferência busca troca de ideias sobre teoria de Darwin e crença religiosa no Egito

26/11 - 18:30 - The New York Times

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ALEXANDRIA – Não é que Charles Darwin e a teoria da evolução sejam conhecidos aqui. Mas mesmo entre aqueles que professam o conhecimento de algo sobre o assunto, o entendimento comum é de que Darwin disse que o homem veio dos macacos.

NYT

Egípcios participam de conferência que discute
teoria da evolução de Darwin, em Alexandria

Claro que Darwin não disse isso. Ele disse que ambos compartilham de um ancestral em comum. Mas para discuti-lo em qualquer lugar não é somente explorar as origens do homem. É inevitável que se envolva em um debate entre religião e ciência. É por isso que, após 150 anos da publicação de “A Origem das Espécies” de Darwin, o Conselho Britânico, vertente cultural do governo, decidiu realizar uma conferência internacional sobre Darwin nessa nação muçulmana, sunita e conservadora.

Foi a primeira vez.

“Muitas pessoas dizem que as teorias dele são erradas, ou que elas vão contra a religião”, disse Martin Davidson, chefe-executivo do Conselho Britânico. “Suas ideias provocam, mas se queremos nos entender, temos que discutir temas que nos dividam”.

Darwin pode não ser compreendido aqui, mas de muitas maneiras esse é apenas um sintoma de um problema ainda mais fundamental na educação do Egito e em toda a região. Em uma cultura que preza e incentiva a conformidade, contestar o convencional e as crenças é um anátema, disseram autores, cientistas políticos, assistentes sociais, estudantes e professores participantes ou não da conferência.

Ensino

A educação aqui é baseada no hábito da memorização, com quase nenhuma ênfase no pensamento criativo. Poucas escolas no país ensinam a teoria da evolução.

“Nossa cultura, e infelizmente todo o contexto da cultura árabe, não encoraja o livre pensamento”, disse Madiha El-Safty, professor de sociologia da Universidade Americana no Cairo. “Você não é incentivado a pensar livremente, você deve ser moldado dentro de certas formas e estruturas”.

De acordo com muitas pessoas do país, boa parte disso se deve à importância da memorização em detrimento do pensamento crítico, a qualidade da educação é pobre. Apesar de os países da região frequentemente gastar mais com cada aluno do que a média mundial, os resultados geralmente são muito aquém da média.

O Egito, por exemplo, que já foi considerado a capital intelectual do mundo árabe, recentemente ficou em 124º lugar em uma lista de 133 países quanto à qualidade da educação primária pelo Fórum Econômico Mundial, com base na Suíça. Outras avaliações forneceram resultados igualmente desanimadores.

“Se nosso sistema educacional fosse sólido, mas não tivesse ênfase em Darwin, estaria tudo bem”, disse Belal Fadl, autor de scripts e comentarista social. “Mas nossa educação realmente não ensina nada bem, nem árabe, nem inglês, nem nada”.

De fato, muitas pessoas, incluindo alguns dos 150 cientistas e acadêmicos que atenderam à Biblioteca Alexandrina neste mês, de certo modo ficaram surpresos com o fato de o governo ter concordado em permitir a conferência. Não é comum a liderança no país permitir discussões públicas de ideias que contestem o pensamento religioso e o currículo nacional, ou que promovam o pensamento crítico, disseram eles.

Mas o consentimento do governo veio em parte por causa da própria biblioteca, uma reencarnação moderna de um centro intelectual antigo que foi reconstruído e reaberto em 2001, um esforço certeiro para reacender o tipo de academia que há séculos colocou o Egito na vanguarda da ciência e do conhecimento.

Pensamentos

Apesar de defender Darwin, que era o tema mais amplo, a ideia era ao menos ouvir novos conceitos, o que o diretor da biblioteca, Ismail Sergaldin, enfatizou em seu discurso de abertura. Como argumento, ele apontou o Alcorão, o qual disse que ressaltava o estudo e a academia, como também os primeiros cientistas muçulmanos. Ele mencionou as palavras do físico pioneiro do século 13, Ibn al-Nafis: “quando ouvir algo incomum, não o rejeite preventivamente, isso seria tolo. Na verdade, coisas horríveis podem ser verdade e as familiares e apreciadas podem acabar se mostrando mentiras. A verdade é a verdade por si só, e não porque as pessoas o disseram”.

Foi uma mensagem que pareceu ressoar sobre muitos estudantes universitários egípcios no salão de palestras.

“Não sou completamente contra a ideia da evolução”, disse Amr Zeydah, 23, zoólogo graduado na Universidade de Alexandria. “Eu aceito a ideia parcialmente”.

Apesar de sua graduação, Zeydah nunca estudou sobre Darwin, e antes da conferência sabia muito pouco sobre a teoria da evolução. Ele aceitou a explicação islâmica sobre a criação, de que Deus fez Adão do barro e lhe deu uma alma.

Mas após participar da discussão, ele disse que tinha trabalhado uma forma de reconciliar ambas as noções: de que Deus criou a vida, que então evoluiu para se adequar ao ambiente. “Deus criou Adão com 15 metros de altura”, disse ele, mencionando o que disse ser uma Hadiz, ou palavra, do profeta Maomé. “Então a evolução aconteceu, porque obviamente não temos essa altura hoje”.

Apesar de algumas pessoas rirem da noção de que o homem já foi incrivelmente alto, de acordo com algumas pessoas, o fato era que as sensibilidades locais e crenças deviam ser entendidas também e não deixadas totalmente de lado, para assim o diálogo funcionar.

“O problema é tentar impor suas ideias aos outros”, disse Samy Zalat, professor de biodiversidade e ex-presidente do Departamento de Zoologia da Universidade do Canal de Suez.

Debate

O Conselho Britânico preparou a conferência para buscar um meio termo, mais do que para promover um confronto. Apesar de desafiar a sociedade religiosa a pensar seriamente sobre a evolução, ela enfatiza também a possibilidade de reconciliar a crença na criação divina e as teorias da evolução e de seleção natural de Darwin. Essa foi uma posição que fez muitos estudantes do país se sentirem confortáveis.

“A teoria de Darwin sobre as espécies não diz nada sobre o surgimento da vida – ou sobre as origens do Universo”, dizia o painel número sete de uma exibição sobre evolução, que um homem expôs durante a conferência. “É perfeitamente plausível apoiar uma explicação científica do quão natural as leis que permitiram ao Universo e à vida se desenvolverem são, e também acreditar que uma divindade criou essas leis”.

A julgar pelos comentários públicos feitos durante a reunião, os esforços para reconciliar a fé e a ciência deixaram os ateístas declarados na audiência frustrados e fez pouco para convencer os fundamentalistas religiosos.

Resultado

Francisco Diego, pesquisador da University College, em Londres, disse: “como sua religião começou? Com mitos e tradições e superstições. Isso veio primeiro, a ciência veio depois. Mas há uma explicação para o mundo natural, gostem ou não”.

Mesmo entre aqueles divididos, a conferência não pareceu mudar muitas concepções. “Eu não acredito em um ancestral comum, mas de fato acredito na evolução”, disse Asma Sharaf, 21, formada em Administração.

No entanto, o que a conferência pareceu fazer foi dar à Sharaf uma chance de experimentar a livre troca de ideias sem medo de ser repreendida por seus professores, pais ou vizinhos.

“Ensinaram-nos que Darwin disse que o homem era um descendente de macacos, de que ele estava errado, e foi só isso”, disse ela.


Por MICHAEL SLACKMAN


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