10/11 - 19:44 - The New York Times
Quando criança, Kim Eun Mi Young odiava ser diferente. Quando seu pai trouxe brinquedos coreanos para casa, um gravador e um livro de figuras da Coreia do Sul, de onde ela foi adotada em 1961, ela os ignorou.
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Kim Eun Mi Young, adotada por americanos, em sua casa em Santo Antônio |
Criada na Geórgia, em Kansas e no Havaí, por uma família de militares, ela só podia namorar jovens brancos, mesmo quando havia garotos asiáticos.
“Eu nunca me considerei algo que não branca”, disse Young, 48, que vive em Santo Antônio. “Eu não sentia nenhuma identificação com uma mulher coreana. Namorar um asiático teria me forçado a aceitar quem eu era”.
Somente após seus 30 anos, ela começou a explorar sua herança coreana. Uma noite, após sair para comemorar com seu marido, na época, ela diz que desmoronou e começou a chorar descontroladamente.
“Eu me lembro de estar lá sentada e pensando: cadê minha mãe? Por que ela me deixou? Por que ela não lutou para ficar comigo?”, disse ela. “Esse foi o começo da minha jornada para descobrir quem eu sou”.
As experiências de Young são comuns entre crianças coreanas adotada, de acordo com um dos maiores estudos sobre adoções interraciais, que deve ser divulgado na segunda-feira. O relatório, que se concentra na primeira geração de crianças adotadas da Coreia do Sul, mostra que 78% daqueles que participaram se consideravam brancos ou queriam ser brancos quando eram crianças. E 60% indicam que a identidade racial se tornou importante ao entrarem no ensino médio. Quase 61% disseram que, na fase adulta, viajaram à Coreia para aprender mais sobre a cultura e encontrar seus pais biológicos.
Assim como Young, a maioria dos coreanos adotados foi criada, predominantemente, por vizinhanças brancas e viam poucas, ou nenhuma, pessoa que parecessem com eles. O relatório também aponta que as crianças sofreram provocações e discriminação social, que frequentemente eram feitas por professores. E apenas uma minoria de participantes disse ter se sentido bem-vinda pelos membros de seu grupo étnico.
Como resultado, muitos deles tiveram problemas em relação à identidade racial e étnica.
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Documentos que acompanharam Young na viagem da Coreia do Sul aos EUA |
O estudo foi produzido por pelo Instituto de Adoção Evan B. Donaldson, um grupo de política e pesquisa de adoção sem fins lucrativos, com base em Nova York. Desde 1953, pessoas dos EUA têm adotado mais de meio milhão de crianças de outros países, sendo a vasta maioria deles de orfanatos da Ásia, América do Sul e, mais recentemente, África. Ainda assim o impacto de tais adoções na identidade pessoal foi estudado poucas vezes. Os autores do estudo disseram esperar que esse trabalho guiasse os legisladores, pais e agências de adoção na ajuda à atual geração de crianças adotadas de países asiáticos, para que formem uma identidade saudável.
“A maior parte da pesquisa de adoção interracial foi feita da perspectiva dos pais adotivos ou de crianças já em fase adolescente”, disse Adam Pertman, diretor-executivo do instituto. “Queríamos ter a possibilidade de adquirir conhecimento e experiência de vida de um grupo de indivíduos que fornecessem uma visão para onde precisamos melhorar”.
O estudo recomenda diversas mudanças nas práticas da adoção que o instituto afirma ser importante, incluindo melhor apoio para os pais adotivos e o reconhecimento de que a importância da adoção aumenta da idade infantil até a adolescente, e então mais na idade adulta, e assim por diante.
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Kim Eun Mi Young com seus irmãos, David (esquerda) e Shawn |
A Coreia do Sul foi o primeiro país de onde um número significativo de crianças foi adotado por norte-americanos. De 1953 a 2007, cerca de 160 mil crianças sul-coreanas foram adotadas por pessoas de outros países, sendo a maioria deles dos EUA. Eles somam o maior grupo de adoções interraciais nos EUA e, de acordo com estimativas, são 10% da população coreana da nação.
O relatório diz que mudanças significativas ocorreram desde que a primeira geração de crianças adotadas foi trazida para o país, em uma época que se dizia aos pais para receber as crianças na família sem se importar com sua cultura nativa.
Além disso, mesmo adotados que são expostos à sua cultura e têm pais que discutem o assunto racial e da discriminação dizem ter achado difícil o processo de crescimento.
Heidi Weitzman, que foi adotada da Coreia quando tinha sete meses e cresceu em vizinhanças com diversas etnias em St. Paulo, Minnesota, disse que seus pais mantiveram contato com outros pais de crianças coreanas e até mesmo se ofereceram para mandá-la para um “acampamento cultural” onde pudesse aprender sobre sua herança.
“Mas eu odiava”, disse Weitzman, terapeuta de St. Paul. “Eu não queria fazer nada que me colocasse como sendo coreana. Convivendo cercada de pessoas que eram loiras e morenas, eu apenas pensava que era branca”. Só após ter se mudado para Nova York, quando terminou a faculdade, ela começou a se sentir confortável em ser coreana.
“Só depois de 21 anos eu pude olhar no espelho e não ficar surpresa com o que via no reflexo”, disse ela. “O processo da descoberta de quem eu sou tem sido longo, e ainda não terminou”.
Por RON NIXON
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