29/10 - 19:54 - The New York Times
AL RAM – Dada a pura euforia da torcida, as bandeiras balançando e o hino cantado pela multidão amontoada no estádio de futebol em uma cidade da Cisjordânia, que do contrário estaria monótona, alguém poderia pensar que um Estado palestino acabara de ser fundado.
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| Jogadora da Jordânia cabeceia a bola em jogo contra palestinas |
Os palestinos estavam jogando contra os jordanianos. Mas mais significativo ainda era que as equipes eram femininas e, para o lado palestino, essa era a primeira partida internacional jogada a céu aberto.
Em frente a uma multidão de berros de ao menos dez mil pessoas – dos quais cerca de três quartos eram mulheres e um quarto, igualmente entusiasmado, eram de homens – a equipe das mulheres palestinas transmitiam uma sensação coletiva de conquista que iludiu seus compatriotas masculinos por um bom tempo.
Com a estagnação do processo de paz e a política palestina dividida, a atmosfera geralmente é pesada. Apesar disso, o jogo se tornou um exuberante carnaval de libertação social e orgulho nacional. A linha entre as duas buscas por igualdade e um Estado reconhecido se tornou cada vez mais turva conforme as mulheres corriam atrás da bola.
“Na nossa cultura”, disse Rukayya Takrori, 50, técnica da equipe palestina, “as mulheres trabalham lado a lado com os homens em campos e fábricas. Eles lutam juntos, manifestam-se juntos. Algumas vezes, ela substitui o lugar do homem, porque ele está na cadeia ou nas montanhas se escondendo”.
Esse jogo, de acordo com ela, mostrou que “as mulheres palestinas podem fazer qualquer coisa – até mesmo jogar futebol”.
Em Al Ram, ao norte de Jerusalém, os sinais da ocupação israelense nunca estão muito distantes. O estádio se localiza a um quarteirão da barreira de separação entre Israel e Cisjordânia. Apesar de ser majoritariamente formada por uma cerca de arame farpado e valas, nesse ambiente urbano ela toma a forma de um muro de concreto alto e aparentemente infinito.
Para entrar em Jerusalém, moradores da Cisjordânia devem ter permissão especial e passar por um ponto de inspeção próximo a Kalandia, que é cinza, parecido com uma prisão com catracas e torres em sua travessia. No domingo, um segurança israelense em seu posto no local foi esfaqueado e ferido por uma jovem palestina.
Mas no jogo de futebol de segunda-feira, os palestinos vieram juntos em uma tentativa mais pacífica pela causa. Apesar de não ter cunho partidário, o evento claramente tinha o símbolo do acampamento não-islâmico que prevalece na Cisjordânia.
Zelando pelos jogadores da partida, havia grandes pôsteres do líder palestino Yasser Arafat e seu sucessor, Mahmoud Abbas. E duas imagens do Rei da Jordânia Abdullah 2º foram colocadas às pressas. Diversos dignitários estiveram presentes, incluindo o premiê da Autoridade Palestina, Salam Fayyad.
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| Torcida agita bandeiras em jogo entre palestinas e jordanianas |
A FIFA, organização internacional que controla o futebol, também mandou um representante, em uma saudação ao compromisso palestino com o esporte.
A maioria das mulheres jogava com a cabeça descoberta, apesar de uma palestina e algumas jordanianas usarem hijabs (pano que cobre parte superior do peito, pescoço e cabeça) e uma malha justa por baixo dos shorts. A capitã da equipe palestina, Honey Thaljieh, 24, é uma cristã de Belém. A jogadora mais nova, Ava Khatib, 14, é uma muçulmana de um campo de refugiados próximo a Jericó.
Para uma sociedade palestina dividida e variada, prevaleceu uma harmonia incomum. “Não há política envolvida”, disse Nur Nabulsi, 17, membro da equipe palestina. “Nós jogamos apenas pela Palestina”.
As mulheres encontraram um improvável campeão em Jibril Rajoub, presidente da Associação Palestina de Futebol e ex-chefe do antes temido dispositivo de Segurança Preventiva na Cisjordânia.
Em uma entrevista em Ramallah, dias antes do jogo, ele disse que havia marcado um ponto durante sua carreira ao promover as mulheres. Ele disse que como chefe de segurança, abriu todos os departamentos para receber recrutas femininas. “Eu apaguei para sempre a ideia de que as mulheres seriam apenas secretárias”, declarou.
Logo depois, ao tomar o controle da associação de futebol em maio de 2008, ele criou uma liga feminina. O resultado do jogo de segunda-feira não é importante, disse ele, acrescentando que “para mim, é um evento histórico”.
Rajoub quer que autoridades americanas de futebol mandem a equipe para jogar na Cisjordânia. Ele diz que seria mais eficiente para ganhar os corações e mentes dos dos palestinos do que as repetidas visitas de George J. Mitchell, enviado especial de Obama para o Oriente Médio.
O esporte, diz Rajoub, é a “forma correta de mostrar que buscamos a paz e a independência. Nós somos embaixadores pacíficos de nossa causa”.
Ao ser questionado sobre jogar contra os israelenses, Rajoub disse que seria “prematuro dialogar dessa forma”. Os jogadores em campo, segundo ele, podem se encontrar em diferentes circunstâncias no posto de inspeção, no outro dia.
Conforme o jogo acontecia, mais milhares de homens palestinos enchiam o telhado observando o estádio, pressionados contra a cerca. A primeira metade terminou mal: 1 a 0 para a Jordânia, após as palestinas errarem o lado e marcarem em seu próprio gol.
O jogo foi difícil para as duas equipes. Duas jordanianas foram carregadas em macas para fora do campo, e as palestinas bateram dois pênaltis por causa das faltas das jordanianas. Terminou em um disputado 2 a 2.
O resultado foi um bônus para as palestinas, que tinham expectativas mais modestas. “É bom para nós”, disse Takrori, técnica da equipe, após o jogo. “Não acreditávamos que íamos fazer gol”.
Por ISABEL KERSHNER
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