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Após 39 anos, soldados recebem homenagem por missão de resgate no Vietnã

30/09 - 20:22 - The New York Times

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SANTA CLARA – No dia em que Ray R. Moreno voltou para casa do Vietnã, o dia em que os manifestantes contra a guerra o chamaram de assassino de crianças, ele decidiu empacotar seu uniforme do Exército e guardá-lo. As lembranças e os pesadelos ainda incomodam, mas ele raramente os discute. Os amigos de batalha foram esquecidos.

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Bruce Kersis e John Reiterman mostram suas tatuagens em uma reunião
anual dos veteranos do Vietnã da Alpha Troop, em Santa Clara

Até que então ele começou a ir às reuniões de sua tropa há poucos anos. De repente, a porta foi reaberta. “Eles estavam lá, eles entendiam”, disse Moreno, 58. “Se quisermos chorar, choramos. Senão quisermos, não.”

Para muitos membros da unidade Alpha Troop da 11ª Cavalaria Armada as reuniões anuais para veteranos do Vietnã e do Camboja se tornaram uma forma de terapia: uma chance de re-conectar, curar feridas e dividir as obrigações incrustadas em uma guerra impopular.

Mas neste ano a reunião foi especial por outra razão. Em um salão de um hotel, neste mês, a Alpha Troop revelou a Citação Presidencial de Unidade, maior homenagem militar para uma unidade, que recebeu do Exército, neste ano, por “heroísmo extraordinário” ao resgatar mais de 70 soldados de uma grande força do Vietnã do Norte em 26 de março de 1970. Nas próximas semanas, como os veteranos esperam, o próprio presidente Barack Obama irá conceder formalmente a citação em uma cerimônia na Casa Branca;

Para os veteranos na reunião deste ano, a maioria dele já com quase 50 ou 60 anos, a citação foi uma poderosa validação das ações que alguns tentaram esquecer. “A ferida, as lembranças, elas nunca irão embora”, disse Moreno, de Orosi, na Califórnia. “Mas nos faz sentir um pouco melhor sermos reconhecidos por algo que fizemos”.

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Veteranos olham álbum de memórias de Jerry Mitchell

A citação terminou uma campanha de seis anos do ex-comandante da Alpha Troop, John Poindexter, para que a missão de resgate ganhasse reconhecimento. Segundo Poindexter, a busca começou após ele ler a história da guerra na qual um veterano reclamava que os soldados da Alpha Troop não receberam nenhuma medalha.

“Foi uma epifania”, disse Poindexter. “Eu senti que tinha de corrigir um erro”.

Ele começou a conduzir um apelo ao Exército por homenagens individuais e uma unidade de citação, organizando uma equipe de assistentes para juntar relatórios de ações realizadas, registros de fatalidades, fotografias históricas e considerações individuais.

Por fim, Poindexter, um rico empresário do Texas, compilou os dados em um dossiê de 10 centímetros de grossura o qual ele mandou ao Exército. Ele também publicou um livro polido intitulado “The Anonymous Bttle” (A batalha anônima, em tradução livre), baseado nas notas da missão de resgate que ele havia escrito 30 anos antes.

A documentação ajudou a tropa a ganhar não apenas uma citação presidencial, mas também medalhas individuais para 14 membros.

Mas o processo de reconstruir a batalha fez mais do que conseguir prêmios. Muitos veteranos dizem que após Poindexter entrar em contato com eles, os interesses que tinham no Vietnã reavivaram. Alguns começaram a buscar amigos do Exército com os quais não falavam há décadas. Outros começaram a comparecer às reuniões da 11ª Cavalaria pela primeira vez.

Romeo Marin, por exemplo, disse que por 33 anos, ele não falou sobre a guerra, nem mesmo com sua mulher. Mas Marin, 60, entregador de cartas em um local próximo a Hartford, Connecticut, disse que ler o manuscrito de Poindexter me fez “sentir energizado”.

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Membros da Alpha Troop, que serviram no Vietnã,
tiram foto durante reunião de veteranos

Ele localizou seu velho comandante de tanque e recuperou sua amizade. Outro integrante da tropa contatou-o e eles começaram a participar de reuniões juntos. “Eles me ajudaram muito”, disse ele sobre os eventos anuais. “Eu estava em uma concha. Há homens que ainda estão”.

Para os veteranos no encontro, a batalha foi majoritariamente uma nuvem de adrenalina alimentada pelo caos. Começou, como muitas outras coisas no Vietnã, com um pedido de ajuda. Um avião havia caído em um complexo de depósito no Vietnã do Norte próximo à fronteira com o Camboja. Eles estavam próximos de serem cercados e a mata densa impedia o resgate por helicóptero. Quando anoiteceu os americanos pareciam certos de que era o fim.

“Eu não tinha opção, nenhum lugar para recuar”, disse George Hobson, comandante da unidade sitiada, Charlie Company.

Mas Poindexter, então capitão com 25 anos, se voluntariou para resgatar a Charlie Company. Uma noite antes, um morteiro havia explodido acidentalmente dentro de um dos veículos de sua tropa, matando diversos homens e deixando os soldados em alerta a noite toda. Mas já naquela tarde, a Alpha Troop estava em tanques do estilo Sheridan e veículos blindados, passando por cima de coisas tão espessas que os motoristas mal viam veículos pela frente.

Seguiu-se um feroz tiroteio quando eles chegaram até Charlie Company. Os aviões americanos tentaram ajudar, mas quase os atingiu com uma bomba. Os soldados do Vietnã do Norte saíam dos depósitos para se recuarem novamente pelos tiros de armas. Finalmente chegou a escuridão e os americanos, percebendo que a noite favorecia o inimigo, carregaram os mortos, os feridos e os exaustos e se retiraram.

A contagem de mortes nunca foi registrada com precisão, mas Poindexter estima que, incluindo com o acidente do morteiro, sete homens morreram e mais cerca de 70 foram feridos antes e durante a batalha.

Hobson disse que acredita que a Charlie Company teria sido exterminada se a Alpha Troop não tivesse chegado até ela naquele momento. Mas na época, era apenas mais um dia no Vietnã. Poucas semanas depois, a Alpha Troop se uniu à invasão no Camboja. E a batalha se tornou um rodapé para a história – ou até menos.

Um integrante da tropa, August Whitlock, lembra que quando deixou o Vietnã, o soldado que processou seus papéis perguntou se ele tinha estado em alguma batalha grande. Quando Whitlock mencionou a missão de resgate e um dia inteiro de troca de tiros próximo da fronteira do Camboja, o soldado examinou uma lista.

Não, disse o soldado a Whitlock, não houve nenhuma batalha assim nessa data.


Por JAMES DAO


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