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Comentário: se Mugabe fosse branco

30/06 - 19:34 - The New York Times

Patson Chipiro, um ativista democrata, não estava em casa quando os capangas de Robert Mugabe apareceram procurando por ele.

 

Então eles pegaram sua mulher, Dadirai, e a torturaram decepando uma de suas mãos e ambos seus pés. Finalmente, a jogaram em uma cabana, trancaram a porta e a incendiaram.

Esse tem sido o padrão ultimamente. Com líderes da oposição se escondendo, os capangas de Mugabe mataram familiares para enviar uma mensagem de intimidação. Até mesmo a esposa do prefeito eleito de Harare, a capital, foi seqüestrada e apanhou até a morte.

Quando o regime de supremacia branco de Ian Smith oprimiu zimbabuanos nos anos 70, países africanos protestaram contra. Eventualmente, até o governo racista branco da África do Sul exigiu mudança e ameaçou cortar o fornecimento de energia caso não acontecesse.

Mesmo assim, o presidente sul-africano Thabo Mbeki continua a criar desculpas para Mugabe – que é mais brutal do que Ian Smith – por causa de uma referência fora de lugar de uma história em comum pela luta de libertação. Zimbabuanos sofreram tanto durante muitas décadas por causa do racismo branco que a última coisa que eles precisam é desculpas pela brutalidade de Mugabe por causa de sua cor de pele.

A expectativa de vida no Zimbábue já caiu do início dos 60 anos para o final dos 30. È verdade que criou mais trilionários do que qualquer outro país, mas isso somente porque a inflação pode chegar a 10%. Qualquer um com $ 90 é um trilionário em dólares zimbabuanos, e comprar um pequeno pedaço de pão custa 1 bilhão.

Quando eu cresci nos anos 70, uma verdade é que Ian Smith era mal e Mugabe um herói. Então foi chocante quando, em minha última visita ao Zimbábue, em 2005, ver quantos zimbabuanos olhavam para o governo branco opressivo com nostalgia. Eles repetiam: “naquela época, pelo menos os pais podiam alimentar seus filhos”.

Os governantes da África sempre reclamam, com razão, que as percepções ocidentais do continente são desproporcionalmente moldadas por bobos e ditadores do que por um número crescente de presidentes eleitos democraticamente liderando com índices de crescimento maiores do que 6%. Mas enquanto presidentes mimarem Mugabe, eles marcam a África com a sua imagem.

Para seu crédito, o presidente do Zâmbia Levy Mwanawasa liderou as denúncias contra os abusos de Mugabe, e Nelson Mandela lamentou o “fracasso trágico de liderança”, mas ele também poderia estar falando sobre as falhas do sul-africano Mbeki.

Os EUA não têm muita voz e os britânicos dispersaram sua influência em parte se focando no compromisso de fazendeiros brancos desapropriados. (Isso é tribalismo para anglo-saxões). Mas há uma saída.

A solução é os líderes do comitê da União Africana dessa semana darem a Mugabe uma escolha clara.

Uma opção para ele seria se “aposentar” com honras - por “motivos de saúde” depois de alegações convenientes de problemas cardíacos – em uma adorável propriedade na África do Sul, levando os principais assessores. Ele seria recebido com respeito e ganharia uma conta bancária com US$ 5 milhões para garantir seu conforto pelo restante de seus dias.

A outra alternativa é que ele pode subir no salto e se agarrar ao poder. Líderes africanos deverão deixar claro, nesse caso, que apoiarão uma denúncia contra ele e seus consultores no Tribunal Criminal Internacional. Liderado pela Comunidade de Desenvolvimento do Sul da África, o mundo também imporá sanções contra o círculo de Mugabe e cortará todos os fornecimentos militares. Moçambique, África do Sul e Congo também cortarão a energia elétrica fornecida para o Zimbábue.

Se essas forem as alternativas, então é provável que Mugabe insista publicamente que deve renunciar. Ainda haverá riscos de um conflito civil e um golpe militar, mas o Zimbábue terá uma chance razoável de se tornar mais uma vez, como Mugabe já chamou, a “jóia da África”.

Algumas pessoas poderão se opor ao fato de que um tirano será recompensado com muito dinheiro e um exílio confortável. É verdade. Mas qualquer outra abordagem provavelmente resultará em muito mais mortes, talvez até uma guerra civil.

Como saberemos que as sanções funcionarão? Bem, temos a própria declaração de Mugabe.

Em um ensaio escrito em 1987 na revista “Foreign Affairs”, Mugabe pediu para os EUA imporem sanções contra o governo branco da África do Sul por realizar uma “guerra civil cruel e horrível” contra seu próprio povo. Ele exigiu que o mundo “aceitasse o valor das sanções como uma maneira de elevar o custo” de um governo brutal.

Se somente Mugabe fosse um racista branco! Então os poderes regionais poderiam enfrentá-lo. Pelos zimbabuanos, deveríamos ser tão decididos em confrontar tiranos africanos negros como somos em confrontar os brancos.

- Nicholas D. Kristof





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