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Editorial: consciência e insensatez no Paquistão

28/03 - 08:36 - The New York Times

Desde que venceu as eleições parlamentares no último mês, líderes da nova coalizão de governo do Paquistão têm mostrado um bom senso de julgamento: colocaram de lado as rivalidades pessoais e se movimentaram rapidamente para reanimar a decadente democracia do país.

Infelizmente, mas o que era já esperado, eles ainda deixaram claro que não confiam no governo de George W. Bush, que apóia incondicionalmente o autoritarismo destrutivo do presidente Pervez Musharraf. E os novos líderes já falam em analisar o papel do Paquistão na guerra travada por Washington contra o terrorismo. Isto é muito preocupante.

O governo Bush intimidou e comprou a lealdade de Musharraf. É improvável que Bush possa agora romper com a desconfiança visceral de paquistaneses. Porém, com uma dose certa de assistência, atenção e humildade, a administração pode ajudar a reforçar o novo governo. Com mais auxilio e humildade, pode ainda tornar claro que lutar contra o extremismo é também interesse direto do Paquistão.

Nawaz Sharif, ex-premiê e líder de um dos partidos da nova coalizão, sem receio, disse a oficiais norte-americanos durante uma visita que faziam à Islamabad esta semana, que não haveria mais no Paquistão o “espetáculo de um único homem”. O novo governo trabalha duramente para marginalizar Musharraf e revelar seus piores abusos, a começar com a libertação de mais de 60 juízes presos no último ano.

Dentre uma explosão de ataques suicidas sangrentos, autoridades em Islamabad falam em um acordo para tentar uma negociação com militantes locais do Taleban. Eles não parecem ter ainda um plano específico, mas é difícil de enxergar como teriam mais sucesso que Musharraf. Seu tratado com líderes tribais na fronteira afegã fracassou de forma espetacular, na medida em que tropas nacionais recuavam e extremistas se moviam em direção às áreas mais populosas do Paquistão. A conjuntura ainda foi pior no Afeganistão.

Este é um caminho arriscado, e Washington deverá trabalhar duro para fazer com que o governo entenda a situação, sem provocar ainda mais ressentimento e desconfiança.

Há outros riscos pela frente. Embora Musharraf tenha se comprometido a trabalhar com o novo governo, Sharif exige a renúncia do presidente, e dependendo do grau de ameaças que isto resulte, o ex-general certamente tentará outro contra golpe. O novo governo deve também concluir uma relação com os Estados Unidos. Washington forneceu mais de US$ 10 bilhões ao Paquistão desde os ataques de 11 de setembro, e a nova administração precisará da continuidade da ajuda.

O presidente Bush pode mostrar seu comprometimento com a democracia e estabilidade com o aumento de assistência não militar para projetos que reforcem as instituições democráticas do país, bem como melhorem a qualidade de vida da população.

A administração provou, mais uma vez, o pouco que compreende sobre as bases da diplomacia. No dia que o novo premiê, Yousaf Raza Gillani, tomava possa, os dois visitantes norte-americanos optaram por um encontro com Musharraf. Este momento deixou a impressão de que Washington continua a não dar ouvidos aos paquistaneses.

O Paquistão tem armas nucleares. É vizinho do Afeganistão. Será que Washington precisa de ainda mais razões para se preocupar com o que acontece na região? Ou ainda mais provas de que falhas não podem mais ser cometidas?

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