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Heath Ledger: um ator cujo trabalho não será esquecido

23/01 - 18:47 - The New York Times

O melhor desempenho da tragicamente reduzida carreira de Heath Ledger – mais ou menos equivalente ao que Jim Stark foi em “Rebelde sem Causa” para James Dean – com certeza foi no papel de Ennis Del Mar em “O Segredo de Brokeback Mountain”.

Um retrato de amor inarticulado e desejo frustrado, Ennis é uma personagem rica e complicada criada de maneira sucinta no conto original de Annie Proulx e trazida a uma vida sofrida pelos roteiristas do filme, Diana Ossana e Larry McMurtry, pelo seu diretor, Ang Lee, e acima de tudo, o próprio Ledge.

Visivelmente, Ennis dá uma imagem familiar de uma masculinidade dura do faroeste, e o desejo que surge sob seu comportamento calado ajuda a explicar essa imagem mais do que contradizê-la. O amor de Ennis por Jack Twist, que ele conhece cuidando de ovelhas em uma montanha do Wyoming no começo dos anos 60, o arrebata e o deixa permanentemente assim. Seu silêncio eterno, sugere o filme, é mais um sinal de covardia do que de força, uma falta de capacidade de reconhecer ou comunicar a verdade de seus próprios sentimentos.

O que tornou seu desempenho tão memorável foi que Ledger, sem trair a dignidade de Ennis ou sua intimidade, conseguiu passar essa verdade para a audiência. Esse tipo de sensibilidade – a capacidade de mostrar um estado emocional interno sem deixá-lo evidente – é o que distingue uma ótima atuação de posição de estrela de cinema. E apesar de Ledge ser bonito e famoso suficientes para ser chamado de estrela, ele era sério e inteligente para não dar o seu carisma muito fácil ou barato demais.

Em retrospecto, a melhor coisa que aconteceu a ele – o momento de sorte para seus admiradores – pode ter sido seu fracasso inicial de atender as expectativas de seu aparente potencial para estrela de cinema. Ele era o mais agradável dos jovens na comédia para adolescentes inspirada em Shakespeare “10 Coisas que Eu Odeio em Você”, com seu cabelo enrolado, testa alta e a insinuação permanente de um sorriso em sua boca de lábios finos. E como muitas vezes acontece com jovens atores de Hollywood, sua boa aparência e charme pareciam como uma porta de entrada para os grandes filmes comerciais. Obediente, mas com toques de brincalhão e energético, ele interpretou jovens épicos em “O Patriota” e “Coração de Cavaleiro”, uma entrada no gênero perene e sempre bobo de ação com fantasias.

É difícil saber exatamente quando Ledger descobriu seu alcance e começou a tentar explorá-lo, mas é claro que ele andou por muitas áreas em um curto período. Ele tinha um lado para interpretar jovens auto-destrutivos, chocantes e perturbados, é verdade – o angustiado carcereiro em “A Última Ceia”; o viciado em heroína de “Candy”; o ator infeliz em “I´m Not There”, além de Ennis – mas a tentação de unir seus destinos ao próprio de Ledger deveria ter sido resistido a todos os custos. Esses papéis devem ser vistos mais como prova de sua sabedoria, inquietação criativa e inteligência do que algum tormento interior imaginado.

Essas mesmas características são muito evidentes em filmes menos conhecidos que não deveriam ser esquecidos. Ledger era hilário e excêntrico em “Reis de Dogtown”, de Catherine Hardwicke, interpretando um veterano na cena de surf e skate da praia de Venice, e gentilmente travesso ao lado de Matt Damon no filme “Irmãos Grimm”, de Terry Gilliam. Ennis Del Mar é complementado por Casanova, que Ledger interpretou na injustamente negligenciada biografia de Lasse Hallstrom, que veio e foi embora rapidamente no final de 2005, durante a ascendência de “Brokeback Mountain”. Não é somente que o heterossexual exibicionista Casanova seja o oposto de Ennis Del Mar nas maneiras óbvias. Ele também é uma criatura caprichosa, uma mistura leve de galantaria e imoralidade.

O que não é dizer que o desempenho de Ledger foi frívolo. Pelo contrário, precisou de inteligência, moderação e um pequeno toque pessoal. Ledger tinha a rara capacidade de misturar leveza com seriedade, uma agilidade emocional que ele mostrou, mais completamente talvez no “I´m Not There”, de Todd Haynes. Das seis personalidades de Bob Dylan no filme, a sua, um ator chamado Robbie Clark, é a mais remota das várias personalidades de Dylan e a mais próxima do mundo do amor, fama e ambição. Bobby começa cheio de uma jovem energia, descuidado e apaixonado, e uma década depois se encontra à deriva e desapontado, sem a felicidade que o sucesso inicial parecia ter prometido.

De novo, é importante advertir em não procurar nesse filme, ou em qualquer outro, por pistas ou presságios. Para mim, parece que Ledger, em sua escolha de papéis, foi motivado acima de tudo por curiosidade, e talvez por uma impaciência com a previsibilidade e cautela que pode pesar nos ombros de jovens talentosos. Em papéis heróicos, como “Coração de Cavaleiro” ou “Ned Kelly”, ele muitas vezes parece entediado, o que pode ser porque ele ficou tão ansioso com a chance de interpretar o sociopata Coringa em “O Cavaleiro das Trevas”, o próximo filme da série “Batman”.

O sentimento ruim de perda e desperdício com a morte de Ledger aos 28 anos de idade não é só porque ele era tão jovem, mas também porque seu talento era grande e ainda a ser descoberto. Parece inevitável que agora ele será colocado junto às belas estrelas que também morreram jovens demais, junto com James Dean, Montgomery Clift e Marylin Monroe. Mesmo antes de sua morte, ele já havia sido capturado na cultura patológica da fofoca que mastiga as vidas privadas das celebridades, e a notícia de terça-feira liberou os rituais normais do canibalismo da mídia.

O trabalho de Ledger irá sobreviver à histeria. Mas era para ter sido mais. Ao invés de ser lembrado como uma jovem estrela que morreu em seu auge, ele deveria ter tido tempo de crescer seu potencial e se tornar o ator surpreendente, estranho e definidor de uma era que sempre teve o potencial de ser.

- A.O. Scott





 
 

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