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Editorial: democracia às avessas

27/11 - 14:16 - The New York Times

Para um líder que concentra em si amplos poderes – controle do exército, do governo, do processo eleitoral e da mídia- o presidente russo, Vladimir Putin, parece um tanto desesperado e ameaçado perante as eleições parlamentares do próximo domingo. Pesquisas apontam uma esmagadora vitória do partido de Putin, União Russa, prolongando assim o influência do líder no governo. No entanto, com uma sede ávida por vitória, o presidente reprime protestos de oposição por todo o país. Os manifestantes questionam as próximas eleições legislativas, além de alegarem falta de democracia na Rússia.

Na semana passada, dois comícios anti-Putin, que contestavam a legitimidade da eleição, foram esmagados por autoridades locais com extrema violência. O ex-campeão do mundo de xadrez, e provável candidato a presidência, Garry Kasparov, foi condenado a cinco dias de prisão por organizar o protesto. Boris Nemtsov, ex-vice-primeiro-ministro da Rússia e mais um futuro concorrente de Putin, foi também detido, juntamente com outros doze ativistas.

Obviamente não é esperada uma rápida transição, de décadas de ditadura soviética, para uma verdadeira democracia livre. No entanto, anos sob o olhar de Putin constituem um verdadeiro fracasso para o país. Apoiado pela grande receita governamental oriunda dos altos preços de combustíveis e uma economia crescente, o reconhecimento do líder se firma sob a restauração da estabilidade e do orgulho nacional russo. Porém, após enfraquecer as instituições democráticas nacionais, a população se mostra pouco confiante em relação ao presidente. O Kremlin controla todo o processo político, de maneira a estabelecer quem pode concorrer cargos públicos, ou ainda quem terá acesso à cobertura do sistema de televisão nacional.

Putin acusou os EUA de terem pressionado organizações internacionais de monitoração para não enviar analistas às próximas eleições parlamentares. Todavia, foi o próprio presidente o responsável por deslegitimar o processo eleitoral russo. Caso nao haja mudanças, a situação será ainda mais agravante durante as eleições presidenciais de 2008.

As relações de Washington com a Rússia, construídas de maneira leviana pelo presidente Bush, demandam mais atenção. Sob o argumento de estimular o processo democrático em Moscou, os EUA, juntamente com a Europa e Japão, colocaram prematuramente a Rússia no grupo de elite, composto por países líderes industriais. Assim, aliados, como regimes democráticos autênticos, devem agora assegurar que a reversão para um passado autoritário russo não se repita.





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