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José Padilha: um produtor e desafiador da consciência brasileira

26/11 - 16:45 - The New York Times

RIO DE JANEIRO – José Padilha brinca que seu próximo filme incluirá uma bibliografia no final, para remeter os espectadores à abundante pesquisa que ele faz para cada projeto. “Nós fazemos filmes que levantam muitas questões que não podem ser respondidas”, ele disse. “Como você soluciona a violência urbana no Rio? Eu não tenho todas as respostas”.

Em uma carreira relativamente curta, Padilha, 40 anos, fez filmes que atingiram questões profundas na consciência social do país. Sua última produção, “Tropa de Elite”, uma visão violenta das guerras de drogas no Rio da perspectiva de um time da força especial chamada BOPE (comparado à SWAT dos EUA), o colocou no centro de um furioso debate sobre violência policial e uso de drogas pela classe média e se tornou o filme mais falado aqui desde “Cidade de Deus”, em 2002. Críticos chamaram Padilha de tudo, desde um esquerdista extremo até um fascista de direita.

: Baseado nas experiências reais de policiais do Rio, “Tropa de Elite” foi o primeiro longa-metragem de ficção de Padilha, após inúmeros documentários bem sucedidos. Mas o duro retrato da ação policial o tornou alvo da polícia militar do Rio, que exigiu saber quais policiais revelaram métodos de tortura a ele. Grupos de direitos humanos e colunistas, ao mesmo tempo, acusaram-no de glorificar a personagem principal do filme, o perturbado capitão Roberto Nascimento, que tortura e mata traficantes à noite e tenta, sem saída, lidar com sua vida violenta durante o dia.

“Algo incrível aconteceu”, disse Padilha recentemente da casa no Rio onde ele e seu parceiro comercial, Marcos Prado, dirigem a Produções Zazen, sua empresa de filmes com seis pessoas. “Essa pequena empresa que fez esse filme causou uma febre. Eu não sei o que significa, mas nunca esperamos criar tamanho fenômeno social”.

Mesmo assim, Padilha disse que seu filme foi muito mal compreendido por alguns, no Brasil especialmente. Aqueles que condenaram seu tratamento de tortura policial excessivo, mas necessário, perderam o ponto do filme, segundo ele, que foi feito para denunciar a polícia como, indesculpavelmente, brutal e corrupta. A personagem de Nascimento acaba sendo um “completo anti-herói” em sua mente, ele disse. Mas nada disso impediu que bancas no Rio inteiro exibissem a personagem de Nascimento, interpretada pelo ator Wagner Moura, de boina preta, nas capas de revista chamando-o de “o novo herói brasileiro”.

Para Padilha, que cresceu em uma família privilegiada que tinha tanto cientistas quanto artistas, produção de filmes não foi um caminho óbvio. Seu pai era um cientista que se formou em engenharia química na Universidade de Houston. Padilha brincou por um tempo com a idéia de se tornar jogador profissional de tênis. Ele se formou em física e trabalhou por um tempo como investidor.

Mas o mundo dos negócios o entediou, e não muito tempo depois ele fez um documentário com Prado, um amigo e conhecido fotógrafo brasileiro.

Em 1998, Padilha e Prado viajaram para Nova York e encontraram Nigel Noble, um diretor de documentário ganhador de um Oscar, da Escola Tisch de Artes da Universidade de Nova York. Eles o convenceram a vir ao Brasil e dirigir um documentário com eles sobre cortadores de árvores na floresta amazônica para produzir carvão para a indústria de aço brasileira.

O filme, “Os Carvoeiros”, foi escolhido para ser exibido no Festival de Filmes Sundance, um golpe de sorte que colocou os dois produtores na direção certa.

Para levantar fundos, Padilha e Prado fizeram alguns documentários para televisão antes de passarem para a produção independente. Até agora, o filme mais notável de Padilha foi sobre o seqüestro de um ônibus municipal do Rio, com uma transmissão ao vivo feita pela mídia que se manteve interrupto na televisão. Seu documentário sobre o episódio, chamado “Ônibus 174”, ganhou um prêmio Emmy nos EUA para documentário.

Esse sucesso mudou a vida do diretor. Ele foi nomeado para a Associação de Diretores e ganhou um prêmio Peabody e ele e Prado contrataram um advogado para representá-los nos EUA e um agente em Los Angeles.

Mais importante, o sucesso de “Ônibus 174” permitiu que Padilha financiasse “Tropa de Elite”. Ele se uniu com Rodrigo Pimentel, um ex-capitão do BOPE, para escrever um roteiro que contasse a história da violência urbana pelos olhos da polícia, feito inédito no Brasil.

Pimentel, que deixou o BOPE depois de se desiludir com sua missão de prender e matar traficantes de droga, disse em uma entrevista que Padilha logo reconheceu que sua vida estaria em risco se ele tentasse fazer um documentário sobre o assunto.

Eles embarcaram então na ficção, se afundando em pesquisas por quase três anos, falando com cerca de 20 oficiais e médicos que trabalharam com a polícia, eventualmente criando o capitão Nascimento.

O filme acontece durante uma operação do BOPE de 1997 para prender uma quadrilha de traficantes de uma favela, meses antes da visita de dois dias do papa João Paulo 2, uma operação que Padilha disse ser um “absurdo”.

“Tropa de Elite”, ele diz, é “um tipo de vingança” para as vítimas da brutalidade policial. “De uma maneira, ao ver o filme, a audiência está se vingando da polícia, sabe o que eu quero dizer? Especialmente nas favelas”.

Mas esse tipo de atitude causou uma forte reação da polícia que, após uma versão pirata ter sido vista por milhões, tentou proibir judicialmente o lançamento do filme. Depois eles foram atrás de Padilha para fazer com que ele revelasse a identidade dos policiais que o ajudaram a escrever o filme. O governador do Rio apoiou o diretor, dizendo para ele ignorar os pedidos policiais. No final, Padilha concordou em dar um curto depoimento no escritório de seu advogado, mas se recusou a divulgar quaisquer nomes.

Inicialmente, o financiamento foi difícil. A rede Globo, um conglomerado brasileiro de mídia, se recusou a contribuir porque os produtores não garantiam um final feliz, disse Padilha. “Você nunca impressiona a audiência dessa maneira”, ele disse. “Nossa idéia é fazer filmes ásperos”.

No final, Padilha conseguiu interesse de Eduardo F. Constantini, o filho de um milionário argentino, que levou o projeto para a empresa de produção de filme Harvey Weinstein, em Nova York, que logo assinou o contrato.

Enquanto o roteiro passou por 12 tratamentos, Pimentel se uniu com o escritor Luiz Eduardo Soares para fazer um livro, também intitulado “Tropa de Elite”. O processo de unir livros com filmes é adequado à visão de Padilha de que a lógica da ciência é mais bem explorada em livros, mas os filmes atraem atração crítica ao assunto.

: “Todos os filmes que fizemos até agora se tornaram vários artigos científicos e inspiraram trabalhos em universidades”, ele disse. “Se você publicar um artigo científico, será muito difícil começar um debate nacional sobre algo. Se você faz isso em um filme há como iniciar um debate.

“Gostamos de criar uma ponte entre esses dois mundos – filme e ciência”.

Padilha atualmente está editando dois documentários, um sobre fome, e outro, filmado principalmente na Inglaterra, sobre o debate entre antropólogos americanos sobre os índios yanomâmis na Venezuela, retratados no livro “Trevas no Eldorado”, escrito por Patrick Tierney.

“Eu não sei quantas páginas eu li sobre o assunto”, ele disse sobre seu projeto da Venezuela, “mas eu sei que já foram milhares”.

- Alexei Barrionuevo





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