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O governo da China não gosta de rock´n´roll

26/10 - 19:55 - The New York Times

XANGAI – Uma música que é muito ouvida no rádio ultimamente começa com uma melodia leve e animada, e letras que são ainda mais melosas.

“Não se importe com a solidão”, sussura a cantora principal. “Eu acho que realmente não importa”.

Outra música que toca muito tenta ainda mais acalmar: “ah, homenzinho, ah, faça sucesso rapidamente”, aconselha. “Aproveite ser pobre, mas feliz todo dia”.

Os marxistas antes se referiam à religião como sendo o ópio do povo, mas na China de hoje, é a música que toca no rádio estatal que tem, cada vez mais, esse papel. Desde que chegou ao poder há cinco anos, o líder chinês, Hu Jintao, fala sobre “construir uma sociedade harmoniosa”, uma frase ambígua sujeita a inúmeras interpretações.

Mas os músicos chineses, críticos culturais e fãs dizem que em entretenimento, o empurrão do governo parece claro: harmonioso significa homogêneo, com literalmente todas as músicas contemporâneas no rádio sendo de amor ou baladas animadoras.

Nas últimas semanas, as redes de televisão passaram por uma intensa pressão de Pequim para limpar a programação de crimes e até referências sexuais sutis. Produtores de programas de variedades estão submetidos às novas regras que têm como objetivo reforçar as noções de dignidade. Galerias de arte e produções teatrais sempre estiveram sujeitas a revisão pelos órgãos de censura.

Mesmo sem recorrer à censura direta, o Estado tem poderes formidáveis para controlar a música popular e moldar gostos. Isso incluí posse estatal de todas as mídias de rádio, a seleção de letras de todas as músicas comerciais e controle rígido dos locais de apresentação.

Fu Guoyong, um crítico cultural independente em Hangzhou, ligou a cultura de músicas pop à conformidade politicamente forçada da revolução cultural, quando somente oito “óperas modelo” socialistas, altamente idealizadas, podiam se apresentar na China.

“Hoje em dia, os cantores podem cantar várias músicas, mas no fim, todos cantam a mesma coisa, o refrão é “se divirta”, disse Fu. “Cultura se tornou algo vazio”.

Em nenhum outro lugar o conformismo é mais reforçado do que na programação de rádio, em que os programas de música pop estão saturados com o equivalente chinês das músicas normalmente associadas, em outros países, com elevadores e consultórios dentais.

“O que prevalece aqui é pior do que lixo”, ele disse. “Como a China enfatiza a estabilidade e harmonia, a maior utilidade dessas músicas é que elas não são perigosas para o sistema. Se as pessoas ouvissem músicas mais underground, faria com que elas sentissem os problemas em suas vidas e resolvessem mudar as coisas”.

- Howard H. French





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