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Editorial: a santa da escuridão

05/09 - 17:52 - The New York Times

Para as pessoas que sempre tentaram entender a mente de madre Teresa, elas podem ter imaginado uma abóbada gótica banhada em luzes ofuscantes repletas de uma convicção santa. Imagine o susto ao descobrir que ela era, também, um lugar sombrio e deprimido, repleto de dúvidas.

Um novo livro com suas cartas, “Madre Teresa: Seja Minha Luz”, publicado pela Doubleday, mostra sua luta por décadas contra a descrença. “Se um dia me tornar santa”, ela escreveu em uma carta, “certamente serei uma da escuridão”. E em outra: “se não há Deus – não pode haver alma. Se não há alma, então Jesus – você também não é verdade. Paraíso, que vazio”.

Isso pode chocar alguns fiéis, mas é uma lembrança bem-vinda de que os santos também são somente humanos e que histórias de devoção sem fim tendem a ser falsas. As cartas – que madre Teresa queria destruir – pode ajudar a acabar com o mito que tem sido construído ao redor dela antes de sua morte em 1997.

Além disso, elas revelam uma religiosa determinada e esperta, que testou os limites de seu juramento de obediência em sua campanha para sair de sua ordem, a Irmãs Loreto, e criar a Missionárias da Caridade, com o objetivo radical de sair do convento para viver entre os pobres de Calcutá. “Por favor, deixe-me ir”, ela escreveu em uma de suas insistentes cartas para seu arquibispo. “Se o trabalho for todo humano, ele morrerá, se for todo de Deus, viverá por anos. Almas estão sendo perdidas enquanto isso”.

Quando o arquibispo autorizou, o resto se tornou história, inclusive a revelação da dor que a assombrou durante décadas.

“Eu acho que não há sofrimento maior do que o causado pelas dúvidas daqueles que querem acreditar”, escreveu Flannery O´Connor, o autor católico cujas histórias atravessam o cenário da descrença do século 20. “O que as pessoas não entendem é quanto custa a religião. É muito mais fácil acreditar do que não”.

O´Connor sofreu de anos de clausura e uma doença debilitadora, madre Teresa passou por décadas de vazio espiritual. Mas – aqui vai a parte exemplar, inspiradora mesmo para os padrões de uma era secular – ambos ficaram quietos sobre isso e continuaram seu trabalho. Madre Teresa, doente por desejar um senso do divino, manteve fé com os doentes de Calcutá. E agora, morta por 10 anos, ela poderá tocar aqueles que reconhecem em sua imagem algo de suas próprias dúvidas e conflitos.





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