22/06 - 19:44 - The New York Times
Já se tornou um clichê jornalístico e portanto uma parte inevitável da discussão do pré-lançamento de “Sicko” a se referir a Michael Moore como uma figura controversa e polarizadora. Por mais que essa descrição não esteja necessariamente errada, isso me parece como auto-realizador (como a controvérsia normalmente se origina em matérias da imprensa sobre quão controverso Moore é) e trivial. Qualquer produtor, político publicamente ou não, cujo trabalho vale a pena ser discutido será argumentado. Mas no caso de Moore, os argumentos são mais sobre ele do que sobre o assunto de seus filmes.
Parte disso é com certeza culpa dele, ou ao menos um subproduto de seu estilo. Sua personalidade de guerreiro feliz, cara normal, tem grande participação em seus filmes e nas campanhas publicitárias deles, e ele não usa neutralidade, equilíbrio ou objetividade. Mais do que isso, seu método polêmico e populista de esquerda parece calculado para guiar guardiões de sabedorias loucas convencionais. Isso porque a sabedoria convencional parece ser bem contra muito das evidências disponíveis, que o liberalismo é uma ideologia da elite, e que a autêntica voz popular sempre vem da esquerda. Moore, portanto, deve ser um hipócrita de alguma espécie.
Então o palco se montou na grande confusão sobre “Sicko”, que argumenta que o sistema americano de seguros médicos particulares é um desastre, e que um sistema guiado pelo estado, assim como existe em quase todo lugar do mundo industrializado, seria melhor. Esse argumento é ilustrado com anedotas e estatísticas – histórias terríveis sobre os americanos que tiveram tratamentos médicos negados ou forçados a declarar falência para poder pagar por eles; informações cruéis sobre expectativa de vida e mortalidade infantil; condenáveis contagens de dólares doados à campanhas políticas – mas é fundamentado na suposição básica filosófica sobre a relação apropriada entre um governo e seus cidadãos.
Moore nunca foi tímido em relação às suas crenças políticas, mas ele nunca havia feito um filme que declarava seus princípios ideológicos tão claramente e acessivelmente. Seus primeiros filmes foram contos de moral, povoados por vítimas e vilões, com ele mesmo como um teimoso, mostrando simpatia pelos oprimidos e depois rumando a encarar os caras maus em seus esconderijos de poder e privilégios. Esse método pode valer em uma comédia ou algo de intensidade emocional – como qualquer diretor de espetáculos, Moore quer que você ria e chore – mas também pode parecer manipulador e simplista.
Em “Sicko”, entretanto, ele para de caçar presidentes de empresas de seguros, ou por insinuar conspirações sombrias contra os doentes. Concentrando nos americanos que têm seguro (depois de um reconhecimento perturbador de que milhões não têm), Moore fala com pessoas que foram ludibriadas, algumas vezes fatalmente, em uma burocracia de lucros e também com pessoas que fizeram sua vida dentro do sistema. O depoimento é eloqüente e enfurecedor, e nada provavelmente será surpresa para ninguém, republicano ou democrata, que tentou ver um especialista ou brigou por um pagamento.
Se você ouvir o que os líderes de ambos os partidos politicos estão dizendo, parece improvável que o diagnóstico dado por “Sicko” seja contestado. Eu não ouvi nenhum discurso ultimamente se gabando sobre quão bem nosso sistema de saúde funciona. Nesse sentido, “Sicko” é o menos controverso e o mais amplamente apelativo dos filmes de Moore. (Também é, surpreendentemente, o mais engraçado e o mais bem editado). O argumento que inspira será principalmente sobre a natureza da cura, e é aqui que a contribuição de Moore será mais provocativa e portanto, útil.
“Sicko” não é uma análise fina de políticas alternativas (Você pode encontrar algumas dessas em um livro recentemente publicado chamado “Sick”, de Jonathan Cohn). Esse filme apresenta, pelo contrário, um simples exercício de comparação.
Aqui é nosso método, e aqui tem outra maneira, aplicada no Canadá, Grã-Bretanha e sim, Cuba. A diferença considerável é que, nesses países, onde muito da segunda metade de “Sicko” acontece, o estado fornece auxílio médico gratuito.
Com alegria evidente, Moore parte a desafiar algumas noções americanas sobre medicina social. Ele descobre que os médicos britânicos são felizes e bem pagos, que os canadenses não têm que esperar muito tempo em pronto-socorros, e que os franceses não pagam impostos até falirem. “Qual é seu maior gasto depois de sua casa e do carro?” ele pergunta para um casal francês de classe média alta. “Zé feesh”, responde a mulher. “Vegetais também”.
Sim, a imagem utópica da França em “Sicko” pode ser exagerada, mas mostre-me um produtor – principalmente um ganhador duas vezes de um prêmio Cannes – que não é um francófilo de alguma maneira. A carta engraçada de Moore é enviada para um governo onde o governo irá mandar alguém para uma nova casa para lavar roupas e fazer sopa de cenouras se torna central em seu propósito como sua conversa com Tonny Benn, um veterano do Partido Trabalhista britânico. Benn lê um panfleto anunciando a criação do Serviço de Saúde Nacional Britânico em 1948, e explica-o não como um estado de paternalismo, mas sim, como um triunfo da democracia.
Mais precisamente, da democracia social, uma frase que há muito parece estrangeira ao dicionário político americano. Michael Moore quer que sejamos mais como todo mundo. Quando ele, de maneira lastimosa, pergunta, “Quem somos nós?”, ele não está realmente questionando por que nossas tradições de comunidade e generosidade não acharam expressão política em um sistema expansivo de bem estar social. Ele está insistindo que tal sistema deveria existir, e além disso, desafiando suas críticas para explicar porque não deveria.
- A. O. Scott
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