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Comentário: Médicos, remédios e os pobres

17/05 - 21:21 - The New York Times

É uma dessas questões que ninguém te fala quando você ingressa na prática da medicina. O que você faz quando vem pacientes que não podem pagar? Alguns médicos se recusam a vê-los. Eu tenho contas a pagar e uma família para alimentar, eles argumentam.

Mas eu cresci na parte rural de Ohio onde um número enorme de pessoas pobres vivem. Minha mãe é uma pediatra lá, e desde o começo, ela nunca conseguiu recusar crianças. Mais de 20% dos pacientes dela foram sem seguro, e mais da metade deles estavam no programa do Medicaid, que paga muito mal e foi recusado por outros médicos. Alguns pacientes não eram tão agradecidos. Alguns não eram tão pobres quanto falavam. Mas nós podíamos contar com a melhor renda de meu pai em urologia para ajudar. Então foi o que ela fez.

A mensagem de meus pais era direta: estamos na medicina e isso vem com certas obrigações morais. Então eu entendi que parte de meu trabalho é atender aqueles que não podem pagar – mesmo se de vez em quando magoe.

Estive pensando sobre isso enquanto eu ouvia as argumentações desdobrarem sobre o que as empresas farmacêuticas deveriam cobrar no mundo em desenvolvimento. A história das drogas para HIV não são bonitas. Primeiro, por quase uma década, nós do Ocidente ignoramos a possibilidade de que drogas antiretro-virais poderiam ser usadas no mundo em desenvolvimento. (Lembra da desculpa do governo dos EUA em 2001 que os africanos não iam conseguir tomar os remédios na hora porque eles não tinham relógios?).

Depois, sob pressão internacional, empresas de remédios fizeram alguns descontos, mas eles não eram bons o suficiente. (O estoque de um ano ainda era mais de mil dólares por paciente). Somente quando um produtor de genéricos indiano forneceu um regime de três remédios genéricos por US$150 por ano e grandes doadores tornaram a distribuição efetiva alcançar países pobres.

Agora estamos sofrendo com outra rodada de batalhas de drogas para HIV ainda mais caras da Merck e dos Laboratórios Abbott. Semana passada, a Fundação Clinton endossou decisões da Tailândia e do Brasil para quebrar as patentes das empresas e comprar versões genéricas mais baratas de remédios. A Abbott retaliou retendo sete drogas novas da Tailândia, incluindo um antibiótico, um analgésico e uma medicação para pressão alta. A luta se tornou cruel.

De uma maneira, é difícil ver como o confronto pode ser evitado. O custo de desenvolver uma nova droga chega perto do US$1 bilhão, e empresas precisam de lucros marginais para receber de volta o custo e incentivar inovações. Mesmo assim, quando uma descoberta que pode salvar vidas é feita, é claramente grotesco fazer milhões sofrerem ou morrerem enquanto esperam vencer uma patente de 20 anos.

A experiência com drogas para HIV é estranhamente encorajadora, embora. Há, na verdade, um espectro de comportamento entre empresas farmacêuticas – assim como com médicos. A Gilead Sciences concedeu licenças para produtores de genéricos para fornecer sua principal droga HIV, Viread, para os cem países mais pobres do mundo com um índice de royalties razoável, em 5% das vendas. Bristol-Meyers Squibb licenciou sua droga de segunda linha, Reyataz, completamente livre de royalties para produtores genéricos da Índia e da África do Sul.

E através do papel da Organização Mundial de Saúde (OMS) adquirindo arranjos para vacinas, produtores podem fazer lucros significativos vendendo vacinas a baixo custo. Esse é o tipo de progresso que queremos construir em cima.

Pressão para aumentar esses esforços aumentarão, e devem. Acordos em vendas regionais e redes de distribuição para drogas para HIV mostram probabilidade de solidificar em maneiras que tornem os remédios disponíveis e apóiem a inovação, mas não temos nada parecido para remédios para doenças cardíacas, pulmonares ou câncer.

Enquanto isso, o mundo está mudando. A causa número 1 de mortes na Índia, China e Vietnã não é HIV. É doenças cardíacas. Câncer é a número 10. Suas populações precisam de remédios para coágulos, quimoterapias e máquinas de eletrocardiograma como todos. Os produtores precisam mostrar o mesmo desejo de tornar essas tecnologias salvadoras de vidas disponíveis para os pobres.

Alguns irão argumentar que empresas só inventam essas coisas; não é trabalho deles garantir que todos os países tenham alguns. Mas isso não está certo. Como o bioético Arthur Caplan aponta: “você não está produzindo meias-calças quando você está no ramo da saúde. Há obrigações morais vinculadas.

E uma delas é essa: se você está construindo um barco salva-vidas, você tem que pensar em quantas pessoas cabe dentro.

Atul Gawande





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