10/05 - 11:00 - The New York Times
SÃO PAULO - Bento 16 desembarcou no Brasil na quarta-feira, iniciando sua primeira viagem papal à América Latina com duras palavras contra o aborto, agitando um continente católico cada vez mais dividido sobre o assunto.
No avião que partiu de Roma, o papa pareceu ir além do que o Vaticano já foi anteriormente na contenciosa questão de políticos católicos a favor de leis de aborto. Ele sugeriu que os legisladores na Cidade do México, que recentemente votaram pela legalização do aborto nas primeiras 12 semanas de gravidez, se auto-excomunharam.
"Sim, a excomunhão não é algo arbitrário - faz parte do código" das leis da igreja, disse o papa de 80 anos, em italiano, respondendo à uma pergunta feita na primeira coletiva de imprensa de seu pontificado de dois anos. "O assassinato de uma criança inocente é incompatível com a comunhão do corpo de Cristo".
O porta-voz do papa, reverendo Federico Lombardi, rapidamente emitiu um esclarecimento que amenizou suas palavras, mas em seguida lançou uma declaração aprovada pelo papa que parece confirmar uma nova gravidade aos políticos pró-aborto.
"Ações legislativas a favor do aborto são incompatíveis com a participação na Eucaristia", dizia a declaração, acrescentando que políticos a favor da opção deveriam "ser excluídos da comunhão".
A declaração inicial de esclarecimento dizia que o papa teve a intenção de se referir às políticas atuais do Vaticano, como expressadas em um documento sobre a Eucaristia que o papa publicou em dezembro. Neste documento, o papa Bento 16 afirmou que certos valores, incluindo a proteção da vida humana desde a concepção até a morte natural, não eram "negociáveis" e que políticos católicos possuiam uma "séria responsabilidade" em promover tais leis.
Na tarde de quarta-feira, o papa Bento 16 chegou à São Paulo, a maior cidade da América do Sul, para uma visita de quatro dias, sua primeira à América Latina, lar de quase metade dos católicos do mundo.
A controvérsia começou na segunda-feira, quando Lula deu uma entrevista à emissoras de rádio católicas na qual disse ter sentimentos opostos sobre o aborto. Apesar de ser pessoalmente contra, disse, como presidente, acredita que o "Estado não pode abdicar de cuidar desta questão como um assunto de saúde pública, pois fazê-lo levaria à morte de muitas jovens mulheres neste país".
Fora em circunstâncias bastante limitadas e específicas, o aborto é ilegal no Brasil, a nação católica mais populosa do mundo. No entanto, estimativas sobre número de abortos ilegais ocorridos no país anualmente, em clínicas clandestinas conhecidas como "fábricas de anjos", ficam na marca de 1 a 2 milhões.
Lula se encontrará com o pontíficie na quinta-feira na maior cidade do Brasil. O porta-voz de imprensa do presidente, Marcelo Baumbach, disse que apesar do aborto não estar na agenda do governo, a possibilidade do assunto ser tocado durante o encontro "irá depender da dinâmica de sua conversa particular".
- Ian Fisher e Larry Rohter
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