07/05 - 11:59 - The New York Times
SÃO PAULO - No começo dos anos 80, quando o papa João Paulo 2º queria frear o que considerava um movimento perigoso e de inspiração marxista dentro da Igreja Católica, a Teologia da Libertação, ele se voltou a um aliado confiável: o cardeal Ratzinger.
Agora, o cardeal Ratzinger é o papa Bento 16, e quando chegar ao país na quarta-feira para sua primeira visita pastoral à América Latina, poderá se surpreender com o que encontrará. A Teologia da Libertação, a qual um dia chamou de "uma ameaça fundamental à fé da igreja", persiste como uma força ativa e até mesmo resistente na América Latina, lar de quase metade dos 1 bilhão de católicos do mundo.
Nos últimos 25 anos, enquanto o Vaticano se movimentou para silenciar os clérigos teóricos da Teologia da Libertação e a Igreja fortaleceu sua hierarquia conservadora, os problemas sociais e econômicos que o movimento destacou pioraram. Em anos recentes, as políticas da região também tomaram um rumo esquerdista, contribuíram para dar à demanda do movimento de que a igreja abrace ‘uma opção preferencial pelos pobres’ um novo ímpeto e credibilidade.
Hoje em dia, cerca de 80 mil "Comunidades Eclesiais de Base", como são chamados os condomínios rurais da Teologia da Libertação, operam no Brasil, a nação católica mais populosa do mundo, e cerca de 1 milhão de "círculos de Bíblia" se reúnem regularmente para ler e discutir as escrituras do ponto de vista da Teologia da Libertação.
Durante a visita de cinco dias do papa Bento 16 ao país, deverá se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, canonizar um santo, pregar aos fiéis e visitar um centro de recuperação de dependentes químicos antes de discursar na sessão de abertura de uma conferência de bispos latino-americanos que discutirá o futuro da igreja na região onde a Teologia da Libertação se originou, prosperou e atraiu grande parte de sua censura. Alguns defensores da Teologia da Libertação estarão presentes, outros estarão em uma conferência paralela, e todos foram advertidos a não ser muito agressivos na expressão de suas opiniões.
As discussões entre os teólogos da libertação e o papa Bento 16 têm sido longas e amargas. Em 1984, como autoridade do Vaticano responsável pela supervisão de assuntos de fé e doutrinas, declarou: "a Teologia da Libertação é uma heresia singular".
Mais recentemente, disse: "para mim, não precisamos da Teologia da Libertação, e sim da teologia do sofrimento", além de argumentar que o movimento apenas se tornará uma teologia válida "quando se recusar a aceitar o poder e a lógica secular" e, ao invés disso, enfatizar "a liberdade espiritual".
- Larry Rohter
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