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Depois do suicídio, uma janela para o outro lado do paciente

17/04 - 18:25 - The New York Times

O relatório de óbito estava perguntando as questões erradas – se o paciente havia bebido de quatro a oito copos de água diariamente, se sua dieta era baixa em gorduras saturadas e sal. A morte não tinha sido um resultado de má alimentação; havia sido resultado de um suicídio.

Quando é seu paciente que morreu, há uma característica fugaz nisso: alguém fugiu, e você não pode capturá-lo de volta ou devolvê-lo vivo. Dieta e líquidos são os menores dos problemas.

Meu paciente era um homem educado, cheio de desejo. Ele queria uma parceira e um emprego. A esquizofrenia dificultou a busca por ambos. Eu sabia sobre suas vozes, e ás vezes eu sabia o que elas tinham dito a ele, mas ainda acreditava que as vozes e o paciente coexistiam em um delicado, porém estável ecossistema. Era uma crença falsa.

Ninguém é imune de contemplar o suicídio. Estudos demográficos mostram que a população que está mais em risco é solteira, urbana, homens mais velhos, brancos, com histórico de abuso de substâncias e doenças físicas, pouco apoio e baixa renda.

Nós decoramos as características no estágio e as lembramos em avaliações para descobrirmos quão assustados devemos ficar. Os critérios são tão específicos que é como colocar taxinhas em um mapa de guerra. Por esses critérios, meu paciente não podia ser achado no mapa (embora psicose também seja um fator de alto risco).

Ele podia, entretanto, ser achado no MySpace.com. Em nosso último encontro, antes dele parar de vir às sessões, ele me disse que havia se unido ao site para encontrar amigos. Buscá-lo lá enquanto estava vivo parecia ilícito, espionando pela janela de seu quarto. Buscá-lo depois de sua morte parecia um imperativo.

Eu digitei seu nome no MySpace, me sentindo secreta e levemente criminosa. Havia uma foto dele em um lado da tela, bonito e elegante, com seu símbolo astrológico, histórico educacional e uma descrição de sua parceira ideal.

Do outro lado da tela, havia listas de mensagens de e-mail que outros membros do MySpace mandaram para ele: amigável, com cumprimentos livres de alucinações. Alguns falavam de se encontrar um dia, outros comentaram sobre outros correspondentes no site, alguns mandavam felicitações em feriados relevantes.

As mensagens tinham isso em comum. Elas foram todas escritas por um correspondente que levava uma vida inquestionavelmente normal. Não foram escritas por alguém assombrado, ou alguém que não passou por exames de drogas anti-psicóticas, ou alguém que havia sido hospitalizado por várias vezes seguidas sob pressão. Não, aparentemente, era de alguém invisível escrevendo de volta.

Eu li todas as mensagens. Elas eram uma apresentação de um homem que eu não conheci propriamente. Eu pensava nele como alguém em uma luta constante de alucinações. Mas ele ignorou-as tempo suficiente para escrever sobre ele, diferente, mas igualmente verdadeiro, e ele achou amigos que o identificavam não pelos sintomas psiquiátricos, mas pelo seu signo do zodíaco. Nesse mundo, ele era peixe, não esquizofrênico.

A última dúzia de mensagens na tela eram exatamente a mesma. Eu entrei no site somente um dia depois de sua morte, mas seu obituário virtual deve ter viajado rapidamente. Descanse em paz, cada mensagem dizia. Agora, é claro, as mensagens não tem receptor, e os amigos que meu paciente fez estavam escrevendo uns para os outros.

A pessoa inquestionavelmente normal, cuja fotografia ainda parecia como se ele estivesse lendo as mensagens de e-mail do outro lado da página, já tinha fugido – para encontrar paz, reconciliação ou alívio, eu não sei.

Eu não sei o que ele achou. Eu não sei por que ele fugiu. Eu não sei se ele bebia de quatro a oito copos de água por dia.

- Elissa Ely, psiquiatra em Boston





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