12/04 - 15:26 - The New York Times
Você sabia que algo estava acontecendo naquele dia. Assim que eu disse para os executivos da MSNBC que eu iria escrever sobre o “60 Minutes”, que já estava em ampla circulação, eles começaram a agir de maneira estranha. "Falaremos depois com você", eles disseram.
Em uma entrevista do “60 minutes” com a transmissão de Don Imus, em julho de 1998, Mike Wallace comentou que o programa “Imus in the Morning” era "sórdido e às vezes racista”.
Imus disse então: “Dê-me um exemplo. Dê-me um exemplo de um incidente racista”. E Wallace retrucou: “você disse para Tom Anderson, o produtor, em seu carro voltando para casa, que Bernard McGuirk está aqui para fazer piadas de crioulo”.
Imus disse: “Bem, eu nun... – eu nunca usei essa palavra”.
Wallace então virou para Anderson, seu produtor: “Tom”, ele disse.
“Estou aqui”, disse Anderson.
Foi aí que Imus perguntou para Anderson: “Eu usei essa palavra?”.
Anderson disse: “Eu me lembro de você usar essa palavra”.
“Ah, tudo bem”, disse Imus. “Bem, então eu usei essa palavra. Mas é claro que aquela era uma conversa em off. Mas...”.
“Até parece que era”, disse Wallace.
A transcrição era puro veneno. Uma fonte muito próxima de Imus me disse na quarta-feira à noite: “eles não queriam esperar sua matéria sair”.
Para a MSNBC, o comentário das “prostitutas de cabelo ruim” sobre o time feminino de basquete, Rutgers, foi muito ruim. Colocar a palavra “crioulo” na boca dele foi ainda além.
O teto estava cedendo sobre a cabeça de Imus. Mais publicitários estavam se afastando. E Bruce Gordon, membro do conselho de diretores da CBS Corp. e ex-presidente da NAACP, disse publicamente que Imus deveria ser demitido.
Mas as críticas mais reveladoras e persuasivas vieram de uma fonte improvável – internamente na rede que televisionava o programa de Imus. Mulheres, em particular, estavam furiosas e angustiadas. Declarações poderosas foram feitas em reuniões internas por mulheres na NBC e na MSNBC – sobre como mulheres negras são desvalorizadas nesse país, como elas são humilhadas por homens brancos e negros.
Mulheres brancas e negras falaram emocionalmente sobre a maneira que as mulheres negras são frequentemente menosprezadas na cultura popular, especialmente na música, e sobre a maneira que novas soluções dão muito mais atenção para histórias sobre mulheres brancas com problemas.
Phill Griffin, vice-presidente da NBC News que fiscalizou o programa do Imus na MSNBC, disse para mim na quarta-feira, “Tocou em um enorme nervo”.
Se McGuirk foi ou não contratado por propósitos nocivos específicos relatados na entrevista do “60 Minutes”, ele realmente fez jus à descrição do emprego. Ele é um menestrel, um homem branco que alegremente levou o grupo de Imus para uma das tentativas mais repugnantes e degradantes de humor racial (sem falar sexista) que é possível de se imaginar.
Negros eram pretos, escurinhos, macacos. Mulheres eram vadias, e acima de tudo, uma variedade infinita de objetos sempre prontos para o sexo, nascidas para serem degradadas.
A questão agora é por quanto mais tempo o programa de rádio “Imus in the Morning” irá durar. No mês passado, em referência a um discurso da senadora Hillary Rodham Clinton em Selma, Alabama, McGuirk chamou Clinton de vadia e disse que ela “teria trancinhas e dente de ouro” no fim de sua campanha primária presidencial contra o senador Barack Obama. Em 1994, um amigo meu, o falecido Lars-Erik Nelson, um excelente repórter e colunista no Daily News e Newsday, mencionou um segmento que Imus apresentou uma música rap “satírica” que dava conselhos ao presidente Clinton sobre o que fazer com Paula Jones: “Bata na vadia”. Nelson também escreveu que havia uma música no programa lidando com o ciclo menstrual de Hillary Clinton.
Então esse lixo racista está acontecendo há muito tempo. Não havia nada novo sobre o tom ou intenção no comentário das “prostitutas de cabelo ruim” de Imus. Como Bryan Monroe, presidente da Associação Nacional de Jornalistas Negros me disseram outra noite, “é um padrão longo de comportamento, e em algum momento alguém tinha que dizer chega”.
O assunto crucial vai além do comportamento patético e infantil de Imus. A questão real é se essa controvérsia vai chocar suficientemente os americanos para eles perceberem quão profundamente racista e sexista essa cultura é.
Parece que nesse assunto, a opinião pública, e as mulheres da ex-rede de Imus, estão muito além das instituições, políticos e figurões da mídia, que sempre ansiaram tanto em aparecer no programa e defender Imus.
Isso é um ótimo sinal.
Bob Herbert
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