06/04 - 19:21 - The New York Times
NAIROBI, Quênia – Por décadas, o mundo perguntou: como libertamos a América de sua opressão de pobreza, doenças e falta de governança? Ao perguntar aos quenianos essa questão, eu me deparei com soluções simples e de senso comum que eles oferecem. Quatro em particular se destacam: transparência, telefones, Tergat e absorventes.
Naisiae Tobiko é um dínamo de 28 anos que cresceu na região Masai do Quênia. Ela administra uma empresa de relações públicas, mas quando nos encontramos, tudo que ela queria fazer era falar sobre a falta de absorventes para as meninas. Eis o motivo, ela explicou: a família dela pôde pagar para mandá-la para escola, onde ela teve sucesso. Quando ela ficou mais velha, ela começou a reparar algo sobre as meninas com piores condições – elas faltavam durante quatro dias todo mês, “e eu não conseguia entender por que”. Quando ela finalmente perguntou, elas disseram que não iam à escola quando elas estavam menstruadas – porque seus pais não podiam comprar absorventes.
“Elas diziam, ‘como eu posso ir a um lugar quando eu estou sangrando?’” ela lembrou. “Algumas usavam panos, terra ou lama”. Por causa dessas faltas na escola, muitas acabavam largando. Então Tobiko recentemente se uniu à Girl Child Network e outras ONGs aqui e começou um projeto no interior para distribuir absorventes grátis. Eles se focaram em 500.000 meninas, e já alcançaram 189.000. Mais dias na escola significam mulheres mais educadas e melhores mães.
“Estamos mantendo as meninas na escola”, comentou Tokibo. Se mulheres têm educação, “nós não queremos mais nada”, ela acrescentou. “Nós lutaremos pelo nosso caminho em todas as áreas, mas nós precisamos do principal – que é educação”.
O Quênia começou a realizar eleições multipartidárias em 1992, e sua próxima eleição nacional está marcada para dezembro. (Por sinal, os quenianos amam o fato que Barack Obama, cujo pai era queniano, está concorrendo à presidência dos EUA, porque, eles brincam, alguém da tribo Luo nunca seria ser eleito para presidente do Quênia!). O campo aqui já está cheio de candidatos presidenciais. Mas a conversa mais reveladora que eu tive sobre isso foi com alguém que não estava concorrendo.
Vimal Shah é dono de uma empresa de serviços de petróleo no Quênia, Bidco, e ele estava ansioso para me dizer que oito meses antes da eleição, ele decidiu fazer um grande investimento para expandir seu negócio. E daí? Eu disse. “As pessoas aqui nunca investem em até um ano antes de uma eleição”, ele explicou. O medo é que sempre a pessoa nova vá mudar as leis – normalmente pelos seus amigos. Mas Shah, como outros aqui, acredita que a evolução do Quênia para a democracia, com leis mais transparentes, agora atingiu um ponto que “mesmo que o governo mude, não irá mudar as leis. Os políticos não podem parar isso”.
É impressionante como um pouco de melhora na governança aqui pode começar um enorme fluxo de dinheiro. Mas também poderia ter mais celulares.
Rose Lukalo Owino, uma autora queniana, me contou essa história: “Recentemente eu estive em Ngutani, ao leste de Nairobi. Eu estava pesquisando para um livro e entrevistando essas mulheres que criam cabras”. As mulheres reclamavam há anos que elas eram enroladas por intermediários que as faziam vender suas cabras por um pequeno preço, porque elas não sabiam o preço do mercado de Nairobi. “Mas quando eu as entrevistei, essas mulheres tinham muito dinheiro”, comentou Owino. Por que? Catorze camponesas se uniram e compraram um telefone celular, que agora elas dividem para conferir os preços do mercado de Nairobi para cabras antes que elas vendam. “Elas estavam falando comigo sobre abrir um banco de micro-empréstimos com seus lucros”, ela disse.
Mas a África não precisa somente de mais modelos de telefone. Precisa de exemplos. Eu encontrei o melhor aqui – Paul Tergat, o melhor corredor de longas distâncias que conquistou cinco campeonatos de cross country e duas medalhas olímpicas de prata. Tergat recentemente ganhou um contrato do governo para promover temas anti-corrupção. Para começar, ele organizou para alguns dos grandes corredores do Quênia carregarem uma tocha de Mombasa até a fronteira com a Uganda. A tocha representa uma luz na corrupção. Os quenianos foram torcer por eles durante todo o percurso.
Ele usou corredores do Quênia, disse Tergat, porque ao contrário de políticos, quando eles ganham uma medalha, “é pública, genuína, e limpa, e eles praticaram por 10 anos para conquistá-las. A mensagem é para dizer para os mais novos, ‘Olhe, você não precisa ser corrupto. Você consegue se tiver paciência’”.
Junte tudo e você verá o que mais me impressiona aqui: a maneira que a emergente democracia do Quênia está desbloqueando as melhores mentes do Quênia para achar soluções quenianas para problemas do Quênia.
Thomas L. Friedman
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