04/04 - 20:21 - The New York Times
NAIROBI, Quênia – Havia alguém checando empregos com o departamento dos EUA em 2005? Você se lembra quando ligou para aquele número 800 para conseguir detalhes? Lógico que sim. Você se lembra como a voz do outro lado da linha te ajudando tinha um sotaque suave britânico com um pequeno ritmo africano? Você sabe por quê? Porque você foi direcionado para um centro de ligações no Quênia.
Então talvez você não estivesse procurando por um emprego, mas você acabou de comprar um novo computador. E quando você ligou, você clicou no ícone para um dos maiores servidores de internet da América para conseguir acesso à banda larga. Mas você precisava falar com alguém para conseguir conectar – então você ligou para o número 800. O técnico que o ajudou também era um queniano no mesmo centro de Nairobi.Ele se chama KenCall. Está localizado em uma instalação de processamento de abacate, e é o maior centro de ligações terceirizado em ascensão do Quênia, com quase 300 empregados e lucros anuais que chegaram a US$3.5 milhões desde que abriu há três anos. Se você está surpreso que é aqui, assim está a maioria dos clientes.
“Eu estava falando com alguém na América que havia acabado de ter um filho, e ela estava pedindo serviço DSL de alta velocidade para sua nova casa – três ou quatro horas depois do nascimento”, comentou Nina Nyongesa, uma supervisora de 25 anos do centro KenCall e estudante de IT na Universidade Nairobi. “Ela disse para mim, ‘Onde você está?’ e eu respondi, ‘Nairobi’. E ela disse, ‘você tem certeza? E ela estava tão feliz – então ela comprou um pra ela, um pra mãe dela e um para sua sogra. E ao invés de eu fazer uma venda, eu fiz três”.
KenCall é uma pequena razão pela qual a economia do Quênia cresceu 6% no ano passado. Mesmo assim, o Quênia ainda tem todos os problemas dos outros Estados africanos – desde a Aids até a pobreza miserável. Mas o Quênia também tem agora um governo eleito democraticamente que está aprendendo a sair do caminho dos empresários do Quênia, deixando-os conseguir a banda larga necessária para competir globalmente. É muito cedo para declarar a economia do Quênia como um “tigre africano”, mas algo está se mexendo aqui e vale a pena olhar – e o KenCall é um símbolo disso.
A empresa começou pelo meio inglês, meio queniano, Nicholas Nesbitt, seu irmão Eric e seu cunhado Stephen Liggins. Nicholas Nesbitt e Liggins tiveram carreiras de sucesso em Wall Street. Mas depois das eleições democratas de 2002, eles decidiram voltar para casa e tentaram ver se eles conseguiam fazer algo de bom pelo seu país e por eles mesmos tirando vantagem dos inúmeros talentos quenianos que falam inglês e receberam boa educação na indústria emergente.
Havia um grande problema, o Quênia, como o resto da África Oriental, não era conectado com nenhum cabo de fibra óptica submarina que daria banda larga barata na escala necessária para esses centros. A internet aqui veio via satélite, que é mais cara e foi feita pelo fato que a empresa de telefonia estatal tinha um monopólio.
Em uma rara ação na África, o governo queniano decidiu desistir do monopólio e abriu competição para banda larga fornecida por satélite – mesmo que isso significasse dispensar 600 trabalhadores do governo. A competição tornou o negócio KenCall possível. O governo queniano agora está trabalhando fervorosamente para se conectar com a rede global de fibra óptica, através de um cabo submarino, que tornaria a banda larga aqui barata e abundante o suficiente para todos os tipos de terceirização.
KenCall abriu no final de 2004, recebendo pedidos dos comerciais da televisão noturna dos EUA. Seus operadores quenianos vendem anúncios de páginas amarelas, alarmes e hipotecas. Mas desde então ampliou seus negócios para incluir armazenamento de informações de uma das principais empresas de crédito e lida com serviços telefônicos de bancos mundiais e empresas de seguro. Para uma economia dependente de café, flores e safáris, isso é uma grande mudança de ritmo.
“O conceito é de se conectar com o mundo exterior e atrair investidores de fora – que nunca estiveram aqui antes”, lembrou Stephen Ogunde, outro supervisor da KenCall.
Os empregados da KenCall pode lucrar em um mês o que metade da população do Quênia faz em uma ano: por volta de US$350. Eles têm seguro de saúde e transporte gratuito.
Não desista da África. A KenCall é um lembrete de que com um pouco menos de regulamentação governamental, um pouco mais de democracia e muito mais de banda larga, empresários africanos podem jogar esse jogo também. “Antes, ‘sem saída para o mar’ significava que você não tinha um porto”, comentou Nesbitt. “Agora, significa que você não tem banda larga de fibra com o resto do mundo. Todo esse mercado está aqui esperando por isso”.
Thomas L. Friedman
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