03/04 - 23:11 - The New York Times
MEERWALA, Paquistão – Se o pensamento já tivesse passado na sua cabeça que seu cônjuge não é 100% perfeito, então só observe o que Shakira Parveen está passando. E dê ao seu marido ou esposa um abraço.
Quando Ghulam Fareed propôs casamento para Parveen, ele rezou e pareceu gentil e devoto. Parveen não o conhecia muito bem, mas ela e sua família ficaram impressionadas.
“O primeiro mês de casamento foi tudo bem”, Parveen relembrou. “E então ele disse, ‘você tem que fazer tudo que eu lhe disser. Se eu falar pra você dormir com outros homens, você tem que fazer isso’”.
Na verdade, Fareed estava administrando um bordel e vendendo drogas, e ele pretendia que Parveen fosse sua mais nova prostituta. “Eu disse, ‘não, eu não quero dormir com outros homens’”, ela disse, mas ele bateu nela até a deixar inconsciente com paus, quebrou seus ossos e em um momento, colocou fogo em suas roupas. Finalmente, ela cedeu.
Seu “marido” a trancou em um quarto, ela disse, e as únicas pessoas que ela via eram clientes. “Por dois anos, eu nunca saí de casa”.
Esse tipo de neo-escravidão é o destino de milhões de meninas e jovens mulheres (e números menores de meninos), ao redor do mundo, particularmente na Ásia. A principal diferença da escravidão do século 19 é que essas vítimas morrem de Aids com 20 anos.
Finalmente, Parveen conseguiu escapar e voltar para sua família, mas Fareed ficou furioso e começou a atormentar sua família, dizendo que só a deixaria em paz se ela voltasse para o bordel como prostituta dele. Então, a gangue de Fareed pressionou Parveen seqüestrando seu irmão mais novo, Uzman, que estava na quinta série. Uzman disse que suas mãos e pés foram acorrentados, e ele foi estuprado diariamente por inúmeros homens, aparentemente sendo prostituído aos clientes.
Os membros da gangue disseram que eles libertariam o menino se Parveen retornasse ao bordel, e ela pensou em se suicidar.
Depois de seis semanas, Uzman escapou quando seus seqüestradores ficaram bêbados e deixaram-no desacorrentado. Mas quando Parveen e seus pais foram à polícia, os oficiais riram deles. Fareed e outros membros da gangue trabalhavam junto com a polícia, disse a família.
Realmente, a polícia até prendeu o pai de Parveen, que só tem uma perna devido a um acidente de trem (essa é uma razão da pobreza da família). Aparentemente sob as ordens da gangue, a polícia o manteve preso por duas semanas, tempo no qual ele diz ter apanhado cruelmente. A polícia também está procurando pelos irmãos de Parveen, que se esconderam.
Fareed também ameaçou seqüestrar e prostituir a irmã mais nova de Parveen, Naima, uma menina da 1º colegial que é a 1ª da classe de 40 meninas. Em pânico, os pais tiraram Naima da escola e a mandaram para parentes longe dali. E seus sonhos de se tornar médica foram destruídos. (Para leitores que querem ajudar, eu publiquei algumas sugestões em meu blog: www.nytimes.com/ontheground).
Essa ligação com tráfico de pessoas e corrupção policial é comum em países em desenvolvimento. O problema não é tanto que as leis são inadequadas; é que donos de bordéis compram a polícia e o tribunal.
Mas a história de Parveen não é somente de corrupção, é também de pobreza.
“Se eu tivesse dinheiro, isso não estaria acontecendo”, comentou a mãe de Parveen, Akbari Begum. “É tudo sobre dinheiro. Na delegacia, ninguém me ouve. A polícia ouve aqueles que vendem narcóticos”.
“Deus nunca deveria dar filhos para pessoas pobres”, ela acrescentou. “Deus não deveria dar irmãs para irmãos pobres. Como somos pobres, não podemos lutar por eles. É muito difícil para pessoas pobres, porque eles levam nossas filhas e as desonram. Não há nada que possamos fazer”.
Mesmo em uma terra onde mulheres e meninas pobres são descriminadas igualmente por cafetões e a polícia, elas têm um salvador – Mukhtar Mai. Ela é a mulher que eu visitei e escrevi bastante (ela também usa outro nome, Mukhtaran Bibi).
Depois de ser condenada por um conselho tribal a ser estuprada por uma gangue por um suposto crime pelo seu irmão, Mukhtar recusou a se suicidar e pelo contrário, ela processou seus atacantes. E então ela usou o dinheiro da indenização (e doações de leitores do New York Times) para administrar escolas e uma organização de ajuda para mulheres paquistanesas.
Foi no extraordinário santuário de Mukhtar que eu conheci Parveen.
Nicholas D. Kristof
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