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Comentário: A chance de Abdullah

23/03 - 23:38 - The New York Times

A Arábia Saudita está se tornando o novo Egito?

Essa é a questão que você ouve cada vez mais esses dias em círculos árabes, enquanto o rei da Arábia Saudita, Abdullah, se torna mais ativo diplomaticamente, e o Egito, o líder tradicional do mundo árabe, se torna mais passivo na diplomacia.

Nos últimos meses, vimos a Arábia Saudita xingar publicamente o Hezbollah por causar uma guerra não provocada em Israel; vimos o rei Abdullah forçar um cessar-fogo entre o Hamas e o Fatah em Gaza; vimos ele tentar domar o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e há rumores que um funcionário importante saudita se reuniu com o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert. Essa reunião foi aparentemente em preparação para o encontro árabe, em Riyadh, nos dias 28 e 29 de março, onde o rei Abdullah fará para reviver a abertura de paz de fevereiro de 2002, da normalização completa das relações em troca da retirada total de territórios ocupados.

Como o Egito, por enquanto, parece estar sem direção, e os sauditas parecem estar abastados em lucros de petróleo, não é surpreendente ver a Arábia Saudita se tornar mais afirmativa. Pode ter benefícios reais – dado a posição dos sauditas no mundo muçulmano – desde que o líder da Arábia Saudita esteja pronto para fazer o que o líder do Egito fez quando se trata de fazer as pazes com Israel.

O que as conversas moribundas israelense-palestinas mais precisam hoje é um progresso emocional. Outra declaração árabe, somente reafirmando a iniciativa de Abdullah, não dará certo. Se o rei Abdullah quer liderar – e ele tem a integridade e credibilidade para fazer – ele precisa ir do encontro em Riyadh para Jerusalém, para fazer a oferta pessoalmente ao povo israelense. Isso é o que Anwar Sadat, do Egito, fez quando ele criou esse progresso. Se o rei Abdullah fizer o mesmo, ele pode acabar com esse conflito de uma vez por todas.

Eu, humildemente, sugiro que o rei saudita faça quatro paradas. Sua primeira deveria ser na mesquita Al Aqsa, em Jerusalém, o terceiro local mais sagrado do islã. Lá, ele, o guarda de Meca e Medina, poderia reafirmar a declaração muçulmana para os árabes de Jerusalém rezando em Al Aqsa.

De lá, ele pode viajar para Ramallah e se dirigir ao Parlamento palestino, deixando claro que a iniciativa de Abdullah tenta dar aos palestinos a vantagem para oferecer paz à Israel com todo o mundo árabe em retorno de uma retirada completa. E ele pode adicionar que qualquer acordo que palestinos façam com Israel em relação ao retorno de refugiados ou troca de terras – para que alguns acordos possam ficar no West Bank em retorno dos palestinos conseguirem algumas partes de Israel – o mundo árabe iria apoiar.

Depois, o rei Abdullah poderia voar de helicóptero para Yad Vashem, o memorial de seis milhões de judeus mortos no Holocausto. Uma visita aquele local selaria o acordo com israelenses e afirmaria que o mundo muçulmano rejeita a negação do Holocausto do Irã. E por fim, ele poderia ir ao Parlamento israelense e entregar formalmente sua iniciativa de paz.

É claro, eu não tenho ilusões sobre isso. Mas há algo mais ilusório do que pensar que o incrementalismo dos últimos sete anos chegará a algum lugar? Agora isso é uma fantasia. Sim, a Al-Qaeda denunciaria o rei Abdullah. O que mais é novo? A família governante saudita irá decidir: passará o resto de seus dias sendo cautelosa ao redor da Al-Qaeda, ou irá confrontá-la, com a cabeça erguida? Muitos mais muçulmanos aplaudiriam se o rei saudita enfrentá-la, ideologicamente? Muitos mais muçulmanos aplaudiriam o rei saudita por tal abertura. E eu não tenho dúvidas que a maioria israelense, que estava pronta para evacuar Gaza por nada, exigiria que o governo israelense reagisse positivamente a iniciativa de Abdullah.

Isso também seria uma maneira de falar para o Hamas se pronunciar, ou se calar. É uma coisa para o Hamas rejeitar os acordos de paz de Oslo. Mas como ele rejeitaria uma abertura de paz para Israel, apresentada pela Arábia Saudita?

O rei Abdullah revelou sua proposta de paz em uma entrevista que eu fiz com ele em sua casa em Riyadh, em 2002. Quando sentamos em sua mesa, ele me disse que estava motivado a propor paz por retirada completa aos israelenses porque “eu quero achar uma maneira de deixar claro ao povo israelense que os árabes não os rejeitam ou os odeiam. Mas o povo árabe rejeita o que sua liderança está fazendo com os palestinos, que é desumano e opressivo. E eu pensei nisso como um possível sinal ao povo israelense”.

Bom, é hora de ir além dos sinais. Se o rei saudita quer ganhar alguns pontos, ele irá realizar a reunião árabe, refazer o plano de paz e ir para casa. Se ele quer fazer história e a paz, ele irá realizar a reunião árabe, refazer o plano de paz, e propô-lo pessoalmente.

Thomas L. Friedman





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