09/03 - 16:40 - The New York Times
"300" é quase tão violento quanto "Apocalypto", e duas vezes mais estúpido. Adaptado dos quadrinhos de Frank Miller e Lynn Varley, oferece um espetáculo bombástico de honra e traição, exibido em imagens que poderiam muito bem estar grafitadas em alguma van customizada no final dos anos 70.
A história principal é bem mais antiga. É sobre a Batalha das Termópilas, que se aconteceu em uma passagem estreita na costa da Grécia, cujo nome significa Portões Quentes.
Quentes mesmo! Devotos dos peitorais, deltóides e outros belos grupos musculares encontrarão muito para saborear enquanto o rei Leônidas (Gerard Butler) lidera 300 homens espertanos em uma batalha contra as forças persas comandadas por Xerxes (Rodrigo Santoro), uma decadente auto-proclamada divindade que quer, como todos os bons vilões de filmes, dominar o mundo.
Os persas, pioneiros na arte do piercing facial, estão em maior número - incluindo ninjas, daroês, elefantes, um rinoceronte turbinado e um gigante careca enfurecido - mas os espartanos claramente possuem academias e aparatos de eletrólise mais eficientes. Também seguem uma ética de guerreiros de valor e liberdade que os torna, apesar de seu apetite voraz pela matança, os mocinhos desta história. (É bom lembrar que, diferente de seus inimigos negros, os espartanos e seus colegas gregos são brancos).
Mas nem todos os espartanos de Esparta apoiam seu rei nesta missão. Um grupo de sacerdotes doentios e corruptos, subornados pelos persas, consultam uma dançarina exótica oracular cujas previsões (fazendo topless, claro) levam a uma cautela contra a guerra. O conselho local é cheio de pacificadores e traidores, entre eles o mordaz, astuto e hipócrita Theron (Dominic West, conhecido pelos fãs de "The Wire" como o irrepreensível McNulty).
Muito covarde para desafiar Leônidas frente a frente, concentra sua atenção na rainha Gorgo (Lena Headley), esposa leal e patriota espartana que luta por sua pátria. Gorgo entende os nobres propósitos de seu marido, a causa maior pela qual ele está disposto a sacrificar sua vida. "Volte para casa com seu escudo ou dentro dele", diz ao marido quando está se preparando para a batalha após uma noite de festejos matrimoniais. Depois ela observa que "a liberdade não é livre".
Outro filme - "Team America", de Matt Stone e Trey Parker, cujos fantoches de madeira eram atores mais convincentes do que a maioria do elenco de "300" - calculou o custo em US$1,05. Particularmente, pagaria 1 dólar a menos, em moedas de 25 centavos ou fichas de fliperama, pela vigorosa sessão de 10 minutos com o videogame que "300" aspira se tornar. Seu esquema de cores produzido digitalmente, mesmo que impressionante em alguns momentos, é difícil de tolerar por quase duas horas (verdadeiros masoquistas podem procurar a versão em Imax), e as caóticas cenas de batalhas seriam muito mais excitantes na primeira pessoa. Quero degolar uns persas também!
Existem algumas seqüências de combate que alcançam magnificência brutal e assustadora, notavelmente um encontro no qual os espartanos escondidos atrás de seus escudos, vão em direção a linha de frente persa, forçando soldados inimigos a caírem de um penhasco. A grande idéia, soletrada muitas vezes em diálogos ou narração, no caso da ação ser muito sutil, é de que os homens livres e machões de esperta lutam com mais valentia do que as massas escravizadas sob o comando de Xerxes. Caçadores de parábolas encontrarão cartilaginosas porções de atualidade jogada em suas direções, mas poderão encontrar muitos destes temas, conduzidos com mais nuances e ironia, num desenho do Pokémon.
O primeiro filme de Zack Snyder, remake de "Madrugada dos Mortos" de George Romero, mostrou tanto esperteza quanto destreza técnica. Mesmo que muita desta perspicácia fique evidente, o script de "300", o qual escreveu com Kurt Johnstad e Michael B. Gordon, é diminuída pelo pesado portento do livro original, cujas imagens avassaladoras são também minadas pelo tipo de pomposidade freqüentemente confundida com genialidade.
Com o tempo, "300" poderá encontrar seu nicho cultural como objeto de zombaria, como os épicos espada-e-sandálias da era pré-imagens computadorizadas. No presente, entretanto, sua auto-seriedade musculosa cansa mais do que diverte. Diga aos espartanos, quem quer que eles sejam, que fiquem em casa e assistam luta livre.
NOTAS DA PRODUÇÃO:
"300"
Dirigido por Zack Snyder; roteiro de Snyder, Kurt Johnstad e Michael B. Gordon, baseado na revista em quadrinhos de Frank Miller e Lynn Varley; diretor de fotografia, Larry Fong; editado por William Hoy; música de Tyler Bates; direção de arte, James Bissell; produzido por Gianni Nunnari, Mark Canton, Bernie Goldmann e Jeffrey Silver; lançamento Warner Brothers Pictures. Duração: 116 minutos.
Elenco: Gerard Butler (King Leonidas), Lena Headey (Queen Gorgo), Dominic West (Theron), David Wenham (Dilios), Vincent Regan (Captain), Michael Fassbender (Stelios), Tom Wisdom (Astinos), Andrew Pleavin (Daxos), Andrew Tiernan (Ephialtes) e Rodrigo Santoro (Xerxes).
- A.O. Scott
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