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Comentário: Uma terra de camelo, leite e mel

27/02 - 20:44 - The New York Times

HARGEISA, Somalilândia – Aqui está o etos da Somália, como um ex-morador de Mogadishu me explicou: “Se eu usar um dólar para comprar comida, então amanhã eu não terei nada. Se eu usar um dólar para comprar uma bala (de arma), então eu posso comer todo dia”.

Esse espírito ousado tornou a maior parte da Somália em um modelo de um estado falido, onde você sente que não se vestiu apropriadamente sem um rifle. Mas espere! Aqui no norte do esqueleto da Somália está a divisão de um lugar que era para ser uma nação, Somalilândia, e é um sucesso notável – para um país que não existe.

Os EUA e outros governos não reconhecem Somalilândia, então as pessoas aqui não conseguem quase nenhuma ajuda internacional. E quando o “país” se formou em 1991, ele foi em grande parte destruído em uma guerra e era uma coleção de ruínas e minas terrestres.

Os anciãos e clãs daqui formaram seu próprio governo, realizaram eleições livres e até estabeleceram uma linha aérea internacional. Confiando no mercado livre e na exaustão generalizada da violência, as pessoas de Somalilândia adotaram a tranqüilidade e a democracia e buscaram maneiras de faturar um trocado.

Andando pelas ruas de Hargeisa, a capital da Somalilândia, ao invés de homens armados, você encontra as prósperas jóias e o mercado financeiro: multidões de vendedores, na maioria mulheres, vendem milhões de dólares em ouro, pedras preciosas e moedas estrangeiras a céu aberto. (Não tente isso em casa!) Continue na rua e você verá que Hargeisa tem carros de polícia, serviço DHL, televisão a cabo, dentistas, inúmeros cafés com internet e congestionamentos (incluindo os cavalos e camelos). Existem escolas públicas e hospitais – até mesmo uma biblioteca pública.

Esse é um país conservador muçulmano, ainda que seja geralmente pró-americano e tolerante. Na última eleição, votaram mais mulheres do que homens. Grupos de mulheres estão lutando contra a prática tradicional da mutilação genital, feita em 97% das meninas aqui.

A lição da Somalilândia é simples: a determinante mais importante do sucesso de um país pobre não é o quanto de ajuda que recebe, mas como é administrado. Se um país adere ao mercado livre e tem um bom governo político e econômico, gerará investimentos nacionais e internacionais que minimizam qualquer quantidade de ajuda.

Como o presidente Dahir Rayale Kahin me disse: “Há um provérbio em nosso país: ‘você pode lavar seu corpo somente com a sua própria mão’. Estrangeiros podem ajudar, mas os nativos devem achar uma solução eles mesmos”.

Uma lição é que os países ocidentais deveriam não somente aumentar sua ajuda financeira, mas também pressionar por um governo melhor. É ótimo perdoar dívidas, mas não subornar ou fazer políticas anti-mercado.

O programa de ajuda dos EUA, Desafio do Milênio, que promove boa governança, é um bom passo nessa direção. Assim como o programa de Tony Blair para combater a corrupção na África.

Um tipo de ajuda ocidental útil é simplesmente apoiar grupos da sociedade civil para combater a corrupção. Aqui em Somalilândia, a imprensa normalmente é livre, mas o presidente recentemente colocou três jornalistas na prisão por publicarem casos de corrupção em sua família. Se os países ocidentais se manifestarem, esse esforço pode valer alguns milhões de dólares em ajuda ao reduzir a corrupção no futuro.

Mais pressão de dentro da África também ajudaria. Outros países africanos deveriam enfrentar racistas como Robert Mugabe, do Zimbabwe, com o mesmo vigor que eles costumavam enfrentar governos brancos racistas.

Outro tipo de ajuda internacional essencial é apoiar políticas econômicas amigáveis ao mercado, especialmente aquelas que iriam promover indústrias de manufaturas.

Na Mauritânia, cuja localização no noroeste da África seria ideal para exportar roupas para a Europa e a América, demora 82 dias para começar um novo negócio, e então tem que efetuar 61 pagamentos de impostos por ano, exigindo 696 horas para calcular e pagar. E no fim, o imposto representaria 104.3% do lucro, segundo o Banco Mundial.

Tudo isso explica porque você não tem nenhuma camisa em seu armário escrito “Made in Mauritania”.

Portanto, vamos ser mais generosos com ajuda internacional, dando mais de 22 centavos por US$100 de renda nacional para assistência de desenvolvimento (a média para países ricos é de 47 centavos). Mas aqueles de nós que pedem por ajuda e perdão da dívida também precisam pressionar da mesma maneira para que as nações receptoras melhorem sua governança, pois no final das contas, o melhor jeito para os países pobres prosperarem é adotar políticas pró-crescimento.

Enquanto isso, é hora de reconhecer Somalilândia como uma nação. Quando um país vai assim tão bem, nós deveríamos saudá-lo como um modelo, não evitá-lo.

Nicholas D. Kristof





 
 

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