12/02 - 12:39 - The New York Times
Os prêmios Grammy adoram as músicas antigas. O espectador que sintonizou a transmissão do prêmio na noite de domingo teve que esperar bastante para ouvir as músicas atuais que estavam concorrendo - entre outubro de 2005 e setembro de 2006 - enquanto canções do passado dominavam o programa.
Algumas vezes tais canções funcionaram, como entretenimento e não promoção popular. Isso foi provado quando o Police tocou "Roxanne" na abertura do show, quando Christina Aguilera cantou "It's a Man's, Man's, Man's World" de James Brown e Mary J. Blige reviveu uma das maiores músicas-diva do planeta, "Stay With Me" de Lorraine Ellison após sua canção "Be Without You". Beyoncé cantou "Listen", da trilha de seu filme "Dreamgirls", a música menos contemporânea de seu álbum "B'Day".
Outras vezes, as canções antigas levantaram a questão do respeito do Grammy pelas músicas que afirmam celebrar. As grandes vencedoras Dixie Chicks foram mais eloqüentes quando apresentaram "Not Ready to Make Nice", canção que lhes rendeu os prêmios mais importantes da noite, do que quando fizeram seu discurso de aceitação; Natalie Maines cantou com desacato e ressentimento ardentes. O melhor que poderia acontecer aos Red Hot Chilli Peppers seria uma chuva de confetes durante a performance de "Snow (Hey Oh)", entenderam?
John Legend, John Mayer e Corinne Bailey Rae dividiram um medley que contou com a sutil música sobre a guerra de Legend, "Coming Home". Porém, um Grammy que poderia ser visto como a vingança dos esquerdistas - com prêmios concedidos às Dixie Chicks, uma aparição de Al Gore e um prêmio na categoria world music dado aos Klezmatics - contou com Mayer apresentando "Gravity" ao invés da consciente e engajada "Waiting on the World to Change".
Talvez a premiação televisionada que promete resumir o mundo recente da música possui preocupações sobre a popularidade do pop atual, com suas bruscas batidas eletrônicas e mercados ramificados. Até porque, o show do ano passado perdeu audiência para o "American Idol", onde quase todas as músicas vêm do passado.
O Grammy contou com sua própria imitação do "American Idol": uma ganhadora da promoção telefônica recebeu a chance de fazer um dueto com Justin Timberlake. Mesmo com pose e habilidade, a música "My Love", do mais recente álbum de Timberlake, recebeu uma abertura antiga, "Ain't no Sunshine" de Bill Withers. (Um pouco antes, em homenagem à audiência do YouTube, Timberlake apontou uma câmera de baixa resolução em seu rosto durante "What Goes Around").
Os profissionais da indústria fonográfica e membros da Academia Nacional de Artes e Ciências da Gravação sempre mostram seu desdém pela premiação. Neste ano, o primeiro prêmio entregue por melhor colaboração vocal pop foi para Tony Bennett e Stevie Wonder ao invés de Blige e U2 ou Shakira e Wyclef Jean (Blige recebeu reconhecimento um pouco depois, estourando o tempo com suas lágrimas e agradecimentos intermináveis).
Músicas elegíveis para os prêmios receberam arranjos novos e um pouco datados: "Crazy" de Gnarls Barkley chegou com orquestra e coral, sugerindo o tema de "Exodus", enquanto os músicos usavam uniformes de pilotos de avião. Shakira e Jean apresentaram uma versão Bollywood de "Hips Don't Lie", com irresistíveis rebolados de Shakira e uma desajeitada cambalhota de Jean.
Mas o show deste ano se afundou num pântano lá pela metade, com a interminável miscelânea de músicas do Eagles cantada pela melhor artista revelação, Carrie Underwood, e o mais vendido grupo country Rascal Flatts, que tornou músicas certeiras como "Hotel California" em karaokê barato. E um medley de R&B representando três gerações apresentou músicas como se sofresse um grande declínio: de Smokey Robinson, passando por Lionel Richie e finalizando com Chris Brown, que dança melhor do que canta.
Em uma época em que a música necessita de toda a ajuda comercial e exposição televisiva possível, o Grammy se apoiou demais nas memórias antigas.
- Jon Pareles
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