29/01 - 16:55 - The New York Times
SOMETHING IN THE AIR Rádio, Rock e a Revolução que Moldou uma Geração Por Marc Fisher
No final dos anos 40 e início dos 50, especialistas em trasmissões de rádio previam que o advento da televisão colocaria um fim na era do rádio. Muitos deles não estavam interessados mesmo em sobreviver, já que poderiam atrapalhar a aceitação da TV. Na verdade, o tipo de rádio conhecido por estes especialistas não sobreviveu. No meio dos anos 50, as redes nacionais que dominavam as ondas desde a década de 20 haviam evaporado, substituídas por mais da metade das estações locais. A televisão tomou o comando apresentando transmissões de dramas e comédias, shows de variedades e notícias jornalísticas.
Mesmo assim, o rádio por si só sobreviveu. O rádio ultrapassa a televisão como um meio de conduzir intimidade e, justamente por não mostrar e só contar, aguça a imaginação mais profundamente. É muito mais barato operar uma estação de rádio, e naquela época os equipamentos de transmissão eram mais móveis, tornando-os perfeitos para apresentações locais. Usando músicas pré-gravadas (antes do advento da TV, a maioria da programação das rádios consistia em performances ao vivo), as estações encontraram uma fonte barata de programação que atraía ouvintes suficientes para gerar sua fonte de vitalidade - rendas provenientes de anúncios e propagandas - mesmo antes da TV tomar o controle.
Em "Something in the Air", Marc Fisher começa sua história a partir desta época, argumentando que o rádio - e as pessoas que trabalhavam e se apresentavam nele - inspirou sua geração a se unir: "Crescemos dançando e sonhando fazer as mesmas músicas, e estávamos unidos de alguma maneira", escreve. "Até a grande separação do final dos anos 60 e começo dos anos 70, esta cultura pop em comum era território de encontro para nossa nação, um encontro que só descobrimos ter perdido anos depois".
Mas Fisher não consegue sustentar sua premissa, porque simplesmente não é verdadeira. Diferentes grupos de pessoas viveram aquele período de maneiras diversas, e ouviram ao rádio de maneiras diversas também. Os garotos do bairro de Fisher, e no meu, passaram 1963 ouvindo os Chiffons e Motown sonhando com um mundo melhor. Os jovens negros de Birmingham, Alabama, passaram parte daquele ano ouvindo as rádios locais não somente pelas músicas de sucesso, mas pelas mensagens codificadas sobre onde se reuniriam para manifestações que mudaram concretamente seus mundos para melhor. Tais experiências não são equivalentes.
Porém, a maioria do livro não diz respeito à esta premissa, e nisto se encontra seu valor. O livro fornece uma história do desenvolvimento do rádio na era pós-guerra, mas funciona melhor quando se afasta do geral e se concentra em radialistas específicos que fascinam Fisher. Fisher escreve de maneira engajada sobre os gigantes do fim de noite como Jean Shepherd e Bob Fass, o irreverente Tom Leykis, o co-fundador da Rádio Pública Nacional Bill Siemering, o rebelde de Long Island Paul sidney e o DJ branco de R&B Hunter Hancock.
Existem razões para disputar a história. Fisher gosta de se concentrar em uma única fonte para cada seção, o que seria ok se estivesse escrevendo uma coleção de perfis ao invés de um livro catalogado como uma pesquisa histórica extensa. Dar à história do rádio Top 40 um único parágrafo sobre o programador Bill Drake (inventor do hipercinético "Boss Radio") é como escrever a história dos singles de sucesso dedicando um só parágrafo a Phil Spector. Escrever sobre a resposta radiofônica da cidade de Nova York à chegada dos Beatles pelos olhos de Bruce Morrow da WABC sem ao menos mencionar "o quinto Beatle", Murray the K da WMCA, é simplesmente bizarro.
No capítulo sobre a rádio de satélite, Fisher fica tão aficcionado sobre o programador Lee Abrams da XM que a rede rival Sirius simplesmente desaparece. (Revelação: Sou apresentador de um programa na Sirius). O capítulo sobre radialistas polêmicos se concentra tão completamente em Leykis que as partes sobre os importantes Rush Limbaugh e Howard Stern (que recebe apenas três páginas) parecem intrusões.
Fisher tinha muito pouco a falar sobre qualquer coisa que tenha acontecido fora da Costa Leste. B. Mitchell Reed, o grande disc jockey de Los Angeles que inspirou a música de Joni Mitchell "You Turn Me On, I'm a Radio", é mencionado apenas rapidamente por seu trabalho em São Francisco. Não há ada sobre a CKLW, em Windsor, Ontário, que foi a rádio número 1 em Detroit e Cleveland por mais de uma década. Wolfman Jack é mencionado por seu papel em "American Graffiti" e sua breve passagem na WNBC em Nova York, mas não há sequer um reconhecimento de sua longa carreira nas rádios da fronteira mexicana, que podia ser ouvido de San Antonio até Buffalo. Fisher adora rádios da madrugada, mas não diz nada a respeito do legendário John R. e Hoss Allen da WLAC Nashville, que também possuía grande audiência em outras partes do país.
Fisher descreve como a música disco dividiu a audiência rock das rádios e galvanizou ouvintes negros e latinos, que haviam sido descartados das rádios rock FM, apesar de escrever sobre tais questões superficialmente. Ele afirma que os disc jockeys negros simplesmente "imitavam o estilo dos anos 40", portanto presumo que nunca tenha ouvido falar de Martha Jean the Queen, Butterball, Georgie Woods, Magnificent Montague ou do jovem Sly Stone. A imitação corria em outra direção. Os leitores terminarão de ler "Something in the Air" sem nenhuma noção sobre o papel importante desempenhado pelos disc jockeys de língua espanhola na divulgação de milhares de defensores dos direitos dos imigrantes pelas ruas de Los Angeles e outras cidades no ano passado, já que Fisher não diz nada a respeito das rádios latinas em geral e seu papel crucial na comunidade chicana em particular. Expor esses manifestantes foi muito mais importante do que as "Rush Rooms" que surgiram em restaurantes por toda nação nos tempos áureos de Limbaugh, o qual Fisher não menciona.
Fisher fornece muitas informações importantes sobre transmissões via satélite e internet, e existem discussões sólidas sobre as consequências da política de lasseiz-faire da Comissão Federal de Comunicações em relação à justiça e serviços comunitários e nas iniciativas bem-sucedidas da administração Clinton em mudar as regras que impediam grandes corporações de possuírem grandes estações. Ele escreve um relato devastador de um dos grupos de focalização que muitas estações grandes usam para escolher suas playlists, argumentando que tais pesquisas questionáveis (cada gravação é julgada por um sample de sete segundos) leva à uma programação sem criatividade. Também tem a coragem de defender os "jabás": "Apesar do lado obscuro do mercado promocional, o bom e velho jabá possuía um resultado desejável: uma maior variedade de músicas no ar".
O problema, no final das contas, foi a vastidão e a mutabilidade da cultura radiofônica que se desenvolveu na metade do século, desde que a TV tomou conta das salas familiares. O livro de Fisher tem seus pontos altos quando fala sobre paixões não tão particulares: a importância de seu primeiro rádio de transistores; a maneira que o rádio e seus sucessores sopraram ventos de mudança em sua vida; o efeito quase mágico de escutar alguém comprometido não só em tocar boas músicas ou dar opiniões políticas, mas também fazer rádio de qualidade, em qualquer forma. Em tais momentos, os leitores descobrirão muitas coisas em comum com Fisher - não como uma geração, mas simplesmente como amantes de uma mídia que, mesmo ignorada e abusada, mantém sua fascinação.
- Dave Marsh
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