28/12 - 11:52 - The New York Times
Gerald R. Ford era um presidente acidental, seu exercício foi breve e seu legado limitado. Mesmo assim, ele era o homem certo no tempo certo para iniciar o processo de cura necessário em um país exausto pela guerra no exterior e pelos escândalos em casa. Elevado ao cargo mais alto da nação quando Richard Nixon foi forçado a se afastar pela ameaça de impeachment, ele era tudo que seu predecessor não foi - transparente e satisfeito com a vida que encontrou. Seus muitos amigos o viam como o "Jerry" de sempre, um produto amigável e flexível da Câmara dos Representantes, cuja auto-segurança e ambições modestas combinavam perfeitamente com um país que precisava de alguns meses de descanso.
A não-planejada e inesperada subida de Ford ao topo da pirâmide política americana foi assistida não uma, mas duas vezes pelo escândalo. Em 1973, quando Spiro Agnew foi afastado da vice-presidência após um escândalo sem relação com o Watergate, Nixon pediu conselhos aos líderes congressionais sobre um substituto. "Não demos outra opção a Nixon fora Ford", lembrou-se mais tarde o então Presidente da Câmara Carl Albert.
A escolha foi muito apropriada, já que Ford era, em essência, uma criatura do Congresso - mais precisamente, da Câmara dos Representantes, um local de acordos perpétuos que não inspira a visão algumas vezes associada ao Senado e nem as habilidades administrativas associadas ao governo. Eleitores de Michigan escolheram Ford 13 vezes, e de seus 25 anos na Câmara, ele serviu oito vezes como líder da minoria. Ford se intitulava um negociador e reconciliador, e seu histórico prova: não escreveu nenhuma legislação em sua carreira.
Como presidente, Ford teria pouco espaço para perseguir grandes ambições, mesmo se as tivesse. Em casa, foi incomodado pela inflação e recessão, e seu esforço para curar ambas fez com que ficasse em constantes brigas com seus antigos colegas do Congresso. Internacionalmente, tinha muito trabalho para manter o poder americano e relaxar as tensões com a União Soviética, durante as conseqüências do colapso do Vietnã e Camboja.
Porém julgou corretamente que sua missão principal era acalmar os ânimos nacionais inflamados pela guerra e o escândalo Watergate - para acabar, como mesmo colocou, "nosso longo pesadelo nacional" - restaurando uma medida de respeito à presidência em si. Com tal objetivo em mente, fez vários pequenos gestos esquecidos hoje em dia, porém simbolicamente importantes na época. Anunciou que seria tolerante com os que resistiam ao alistamento, abriu a Casa Branca pra pessoas na "lista negra" de Nixon e viajou por todo o país, discursando para grupos pequenos e grandes, num esforço para abrir sua presidência para inspeção pública.
Mesmo assim, seu desejo de cura levou a algo que reabriu as mesmas feridas que tentava fechar. No dia 8 de setembro de 1974, com menos de 30 dias no cargo, Ford anunciou sua decisão de dar a Nixon "perdão livre e absoluto". A reação foi imediata, intensa e extremamente negativa. Ford esperava críticas, mas não a revolta que irrompeu no Congresso, nos jornais e entre o público.
Este jornal, por exemplo, condenou o perdão como "um ato profundamente enganado, injusto e causador de discórdia", que instantaneamente destruiu a "credibilidade como homem de sensatez, candor e competência" do novo presidente. O ponto fundamental dos críticos era que uma nação na qual a lei de aplicava igualmente aos ricos e pobres e aos humildes e poderosos, não poderia excluir ninguém, muito menos o presidente, dos requerimentos da justiça.
A história foi mais compreensiva com o argumento de Ford. Ele dizia que permitir o julgamento de Nixon desequilibraria profundamente uma nação já doente. Em 2001, os consignatário da Biblioteca John F. Kennedy homenagearam Ford com o "Profile in Courage Award" pela decisão, a qual o senador Edward Kennedy, democrata de Massachusetts e ex-crítico da decisão, descreveu como essencial à restauração da união nacional. Quando líderes da Câmara e Senado concederam à Ford e sua mulher Betty uma Medalha de Ouro Congressional em 1999, o presidente Clinton - que também possuía experiências com acusações - disse que os críticos haviam "se exaltado" e que a decisão de Ford ajudou a "manter o país unido".
Nosso ponto principal continua o mesmo: a nação é forte o suficiente para agüentar quase tudo, menos mentiras. Mesmo assim, Ford merece ser lembrado além de seu perdão. Marcar o fim de um pesadelo nacional não é para qualquer um.
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