28/12 - 17:40 - The New York Times
Não é nada fácil encontrar dois homens tão diferentes quanto Gerald Ford e James Brown. Mas tive reações similares à suas mortes - um sentimento de decepção com relação a alguns dos caminhos que a nação tomou desde seus dias de maior notoriedade.
Ambos foram figuras importantes, mais simbolicamente do que substancialmente, em períodos cruciais na história americana pós-guerra - Brown na crista do movimento de direitos civis na metade dos anos 60 e Ford no meio do "longo pesadelo nacional" que foi Watergate.
Ambos eram improváveis anunciadores do novo; Brown, com seu brilhante (e anacrônico) penteado pompadour tornou-se a encarnação do orgulho negro, um trovador que encorajava seus seguidores a gritarem alto "sou negro e tenho orgulho" ("Say it Loud - I'm Black and I'm Proud") numa época em que as portas das escolas estavam se abrindo e oportunidades sem precedentes surgiam aos negros americanos, após séculos de inimaginável humilhação.
Ford era muito mais do que o designado curador do Watergate. Os EUA estavam nos espasmos finais do longo pesadelo nacional do vietnã e presos em uma crise prolongada de energia. O país procurava por direção.
Meu desapontamento nasce das oportunidades que nunca foram aproveitadas e das lições nunca aprendidas destes dois períodos, ambos cheios de possibilidades.
A mensagem de Brown era incansavelmente otimista e animada. Apesar da contínua praga do racismo, haviam sonhos nos fabulosos dias dos anos 60 a espera dos negros americanos, dias nos quais esteriótipos e degradações do passado seriam apagados por uma nova era de realizações educacionais, profissionais e culturais.
Tais sonhos não incluíam visões de uma população em extrema desvantagem econômica que continuaria vivendo na pobreza, ou próxima da pobreza, mais de 40 anois depois; ou um sistema educional público ineficiente e extremamente segregado que deixaria geração após geração de crianças educacionalmente desprovidas; ou uma população prisional negra tão vasta e tão persistente que se tornaria normal para legiões de jovens, ditando seus gostos na moda, arte e música; ou um nível de violência prolongada que condenou milhares de jovens negros à morte.
Sim, houveram diversos caminhos desde o meio dos anos 60. Isso é inegável. Mas uma pessoa teria que ser cega para não perceber que existe muita razão para desapontamento também.
James Farmer, que ajudou a criar o Congresso de Igualdade Racial sob princípios de não-violência de Gandhi, me disse uma vez que mesmo que o movimento de direitos civis tivesse crescido e alcançado sucesso, seus líderes cometeram um erro grave.
"Não possuíamos nenhum planejamento a longo prazo", disse. "Então ficamos presos sem um programa após o sucesso de nosso esforços, que incuíram a aprovação de uma lei de direitos civis e a legislação de direito ao voto. Poderíamos ter antecipado o retrocesso que se seguiu. Poderíamos ter nos perguntado quais seriam as perspectivas de trabalho para os negros nos anos 70, 80, 90 e assim por diante. Não fizemos nada além do ato afirmativo. Deveríamos ter um plano".
Seria tolo sugerir que os Estados Unidos como um todo não tenha feito progressos desde os anos 60 e 70. Mas é impossível refletir na presidência de Gerald Ford, que formalmente acabou com a participação americana na guerra do Vietnã e falhou em perceber que seu secretário de defesa, Donald Rumsfeld, e chefe de equipe, Dick Cheney, estavam entre os arquitetos principais da atual calamidade no Iraque. Existe uma galeria de lições a serem aprendidas pelo Vietnã. Mas Rumsfeld e Cheney, como garotos de fraternidade escapando de um sermão importante, conseguiram ignorá-las.
O trauma do embargo do petróleo de 1973 levou o país a agir na questão da energia. Padrões de economia de combustível para automóveis foram instaurados, e melhorias foram feitas na eficiência de energia em geladeiras, ar-condicionados e outros eletrodomésticos. Porém estes bem-sucedidos esforços anteriores, ao invés de serem fortalecidos, foram minados pela onda política conservadora dos últimos anos.
Agora somos confrontados com a ameaça urgente do aquecimento global e como sempre, não existem planos.
Se a história tem algo a dizer, é de que nunca aprendemos com ela. Poderíamos recuar da guerra no Iraque e avançar no desafio do aquecimento global. Poderíamos ter aprendido algo quando James Brown estava nas paradas e Gerald Ford na Casa Branca.
Fica para a próxima.
Bob Herbert
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