26/12 - 17:45 - The New York Times
Nos anos 70, o crítico cultural Lionel Trilling nos encorajou a levarmos a sério a distinção entre sinceridade e autenticidade. Sinceridade, dizia, requer que as pessoas ajam e realmente sejam da maneira que se apresentam aos outros. Autenticidade envolve descobrir e expressar o real eu interior e julgar todas as relações nestes termos.
A autenticidade hoje em dia domina nossa maneira de enxergarmos à nós mesmos e nossos relacionamentos, com conseqüências detestáveis. Cultiva a dúvida em indivíduos sensíveis, promove desconfiança entre as pessoas, aumenta o pensamento de grupo na interminável cruzada para se tornar a única alma verdadeira do mesmo, além de ser a fonte interna de políticas de identidade.
Também questiona bons governos. James Nolan, em seu livro "The Therapeutic State", mostrou como a ênfase na primazia do "eu" penentrou em áreas importantes do govenro: argumentos emotivos vencem discursos racionais em audiências congressionais e na justiça criminal; e na educação pública, a auto-estima compete com os conhecimentos básicos na avaliação de alunos. O culto à autenticidade é parcialmente proveniente de nossa fraca escolha de líderes. Preferimos líderes que sentem a nossa dor, ou um garoto de fraternidade que declara não conseguir olhar nos olhos vazios de um ex-agente da KGB e enxergar sua alma. Por outro lado ouvimos, ad nauseum, que Hillary Clinton, indiscutivelmente uma das senadoras mais capazes do país, é "falsa" e portanto, não elegível como presidente.
Porém, é durante nossas tentativas de lidar com o preconceito que a autenticidade nos confunde mais. Cientistas sociais e pesquisadores de opinião rotineiramente menosprezam resultados mostrando o aumento da tolerância; eles afirmam que os americanos simplesmente aprenderam como camuflar seus preconceitos. Um novo sub-campo da psicologia invoca a validação de tal ceticismo. A psicólogo social de Harvard Mahzarin Banaji e seus colaboradores afirmam possuir evidências, baseadas em mais de 3 milhões de testes online, de que quase todos nós somos autenticamente preconceituosos com "preconceitos implícitos" escondidos - contra raça, idade, homossexualismo e aparência - os quais negamos, às vezes com visões tolerantes conscientes. Os tiroteios policiais contra Amadou Diallo e Sean Bell, afirmam, são apenas exemplos dramáticos de como o "preconceito implícito" influencia o comportamento de todos nós.
Não importa o quão bem-intencionados estes pesquisadores sejam, sua psicologia é moralmente invasiva e, como bem colocou o psicólogo Philip Tetloc, de validade e uso questionáveis. Ela não consegue distingüir entre apreensão legítima e preconceito odioso como respostas à problemas sociais idênticos. Uma amedrontada jovem negra morando em um bairro de alta criminalidade poderia facilmente acabar com um repertório racista. Um exército de treinadores de diversidade usam o teste de Banaji para promover uma piegas consciência contra o preconceito em empresas, a qual meu colega Frank Dobbin mostrou ser uma substituta para promoções de minorias.
Eu não me importo nem um pouco se meus vizinhos e colegas de trabalho são autenticamente sexistas, racistas ou qualquer outra coisa. O que importa é que eles se comportam com civilidade e tolerância, obedecem as regras de interação social e são sinceros à respeito. O critério para a sinceridade não é ambíguo: cumprirão suas promessas? Honrarão os significados e entendimentos que negociamos? Seus gestos de cordialidade são oferecidos de boa-fé consciente?
Acadêmicos como Richard Sennett e o falecido Philip Rieff atribuem o crescimento da autenticidade à influência da psicanálise, mas o etos protestante da América e sua crescente intromissão na vida pública pode ser igualmente culpado. Qualquer que seja a causa, por séculos a norma da sinceridade foi apresentada como modelo alternativo de individualidade e julgamento para relações não-íntimas e seculares. Sua expressão icônica é a celebrada passagem de Shakespeare: "Todo o mundo é um palco / E todos os homens e mulheres são meros atores / Têm suas entradas e saídas / E um homem, em seu tempo, desempenha vários papéis".
O "ego" de Shakespeare é inevitavelmente público, adaptado na interação com os outros e pelos papéis que desempenhamos - o que sociologistas, desenvolvendo sua teoria, chamam de o "eu do espelho". Isso permite mudanças. A sinceridade se apóia na pacificação de nosso desempenho de tolerância com a pessoa que nos tornamos. E o que isso significa para nós hoje em dia é que a melhor maneira de viver em nossa diversificada e contenciosamente livre sociedade é não obcecar sobre as profundezas escondidadas de nosso preconceitos e nem tentar negá-los, e sim nos comportarmos como se não possuíssemos nenhum.
Orlando Patterson
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