Navegar na web abalou toda a família

"Navegar na web abalou toda a família" Por Marici Capitelli São Paulo, 29 (AE) - Assim que chegou do hospital depois de 35 dias de internação, a secretária Sandra Maria Pontes de Souza, de 59 anos, foi procurar informações na internet sobre a sua doença recém-diagnosticada: aplasia de medula óssea. O que leu foi desesperador.

iG São Paulo |

"Navegar na web abalou toda a família" Por Marici Capitelli São Paulo, 29 (AE) - Assim que chegou do hospital depois de 35 dias de internação, a secretária Sandra Maria Pontes de Souza, de 59 anos, foi procurar informações na internet sobre a sua doença recém-diagnosticada: aplasia de medula óssea. O que leu foi desesperador. "O texto dizia que a expectativa de vida era de, no máximo, um ano. Fiquei arrasada, achando que era o meu fim", conta. Os parentes e amigos também buscaram informações na rede e ficaram tão apavorados quanto ela. Os dias se arrastaram até a próxima consulta com a hematologista. "Ela disse para não levar o texto a sério, pois na internet muitas informações não faziam sentido e que cada organismo reagia de um jeito", lembra. GARGALHADA Passados quase três anos e bem de saúde, Sandra cai na gargalhada quando lembra desse dia fatídico. "Abalou toda a família. Eles já estavam até se despedindo de mim." Por conta dessa experiência, a secretária acredita que a internet pode mais atrapalhar do que ajudar. A filha de Sandra, Tatiana Carli, de 29 anos, tem esclerose múltipla e quando recebeu o diagnóstico de sua doença também ficou estarrecida com o que leu na web. "Vi uma informação que dizia que os doentes, em dois anos, iam para a cadeira de rodas." O resultado de uma busca simples sobre a doença na internet aponta quase 150 mil referências ao assunto. PRECAUÇÃO Depois dessas experiências, a lição que ficou para essa consultora de informática foi a de aprender a filtrar as informações. Ela optou por não participar de fóruns de discussão sobre a doença. "Existem depoimentos de pessoas muito desesperadas, que estão no fundo do poço. É preciso filtrar isso porque caso contrário, você embarca também." Tatiana, entretanto, que se diz muito curiosa, acredita que a internet oferece embasamento para que se questione os médicos durante as consultas. "É muito importante ler previamente sobre a doença para poder questionar e perguntar. Não precisamos mais só ouvir e engolir o que eles nos dizem", acredita. Juliano Cappi, analista do Cetic, diz que o crescimento de interesse por informações de saúde pode ser atribuído a fatores como os impactos da gripe suína e também à febre tropical na Amazônia. BOXE Médicos não podem consultar pela internet Apaixonada pela internet e pela escrita, a neurocirurgiã e clínica geral Liliana Pelegrini, de 47 anos, já chegou a ter sete blogs. Embora não escrevesse neles como médica, ela se viu às voltas com leitores que, depois de descobrirem sua profissão, faziam perguntas de cunho médico. "Fui obrigada a fazer um post em todos os blogs explicando que não faço consultas pela internet." A atitude deixou muitos leitores inconformados. "Recebia mensagens com as pessoas me xingando, indignadas com a minha postura." O Conselho Federal de Medicina proíbe os médicos de dar consultas pela internet. Em um dos blogs em que discutia transtorno afetivo, os leitores descreviam sintomas, medicamentos e pediam orientações. Liliana só os orientava a procurar um psiquiatra ou consultar o próprio médico. (M.C./AE) SEGUNDA RETRANCA Fiocruz vai avaliar sites com informações médicas A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) irá realizar neste ano um trabalho de avaliação dos sites com informações médicas. A partir dessa análise, a instituição irá recomendar os que tiverem qualidade e forem confiáveis. Para realizar o trabalho, os pesquisadores vão contar com a ajuda de pacientes de doenças crônicas. "A nossa proposta é que pacientes de doenças como tuberculose, diabetes, aids, doenças cardíacas e outras leiam os sites e avaliem se conseguiram entender as informações", explicou o pesquisador André Pereira Neto. "Para isso, nós vamos contar com a ajuda dos próprios usuários." O trabalho será em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro. Em 2005, foi feita uma pesquisa por um aluno, professores e colaboradores da disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP, que avaliou informações sobre rinite alérgica nos sites brasileiros. Foram analisados 173 sites. O resultado apontou que 86,1% deles não estavam de acordo com o manual de Princípios Éticos para Sites de Medicina e Saúde do Cremesp. Em 84,4% deles, foram constatados problemas em relação à qualidade. Trabalho publicado em 2008 pela Fundação Oswaldo Cruz, de Minas Gerais, avaliou as informações sobre leishmaniose visceral em 24 páginas brasileiras, sendo oito governamentais, dez comerciais e seis diversas. O resultado apontou que as informações eram pouco relevantes para os leigos. Na ocasião, os pesquisadores concluíram que era necessária a criação de mecanismos de disseminação de informações corretas da doença na rede. (M.C./AE)

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