¿Não sei se o corpo ainda está aqui. Essa situação é angustiante"

Moradores de Nova Friburgo dependem do boca a boca para saber onde estão seus familiares mortos na tragédia

Anderson Dezan, enviado a Nova Friburgo |

Agência O Globo
BR-142 está interditada entre Muri e Lumiar, em Nova Friburgo, após desmoronamento

Entre os moradores de Nova Friburgo, o temporal é apenas o começo de uma trajetória de dor e angústia. O aposentado Arino de Oliveira perdeu o filho Wenderson, de 21 anos, no desabamento no bairro Rui Sangrade. Ele soube pelo boca a boca que o corpo do filho fora resgatado pelo Corpo de Bombeiros e que teria chegado nesta manhã ao Instituto de Educação. Como todo boca a boca, a informação é imprecisa. “Não sei se o corpo ainda está aqui”, disse Oliveira. “Essa situação é muito angustiante”.

O colapso da cidade está impedindo os sobreviventes de identificar e enterrar seus mortos. Pior, eles não sabem nem quando nem se vão conseguir dar um tratamento digno à memória dos seus familiares. As chuvas destruíram o Instituto Medido Local da cidade e a identificação está sendo feita em uma escola, em uma igreja e na prefeitura. Com a tragédia, faltam funcionários e procedimentos simples para amenizar a dor dos moradores.

A vendedora Aline Torres perdeu a avó, de 89 anos, em um deslizamento no bairro Santa Elisa. A jovem chegou ao local por volta das 9h30 e, por volta das 11h25, ainda não havia conseguido liberar o corpo. “Ela já está identificada e quero levá-lo para o velório. Os funcionários tentam fazer o melhor, mas a situação está caótica”, desabafou.

O cheiro na escola é insuportável. As pessoas usam máscaras. Caminhões vão e vem, em ritmo frenético, trazendo novos corpos. Os funcionários do governo estadual, com a ajuda de soldados da Polícia Militar, estão sobrecarregados. Eles têm de ajudar na identificação dos corpos e organizar a fila de parentes, desesperados. Para acelerar o processo, uma funcionária ouvida pela reportagem do iG, que preferiu não se identificar, explicou que os corpos que chegam já identificados, com o nome preso à roupa ou com um documento, por exemplo, são liberados com antecedência.

Morte no resgate
Por mais que as equipes de resgate e de identificação se esforcem, elas também estão no limite. Além do trabalho extenuante, os bombeiros estão perdendo colegas de trabalho. “Sete bombeiros foram soterrados, quatro foram encontrados com vida, mas outros três ainda não”, disse o sargento Rivaldo Libório, há 24 anos no Corpo de Bombeiros de Nova Friburgo.

Carlito Freitas acompanha de perto o resgate de um grupo de bombeiros, que foi soterrado. Seu filho caçula, Flávio Freitas, de 24 anos, estava há dois anos na corporação. Ele ainda não foi encontrado. “Estou na esperança de encontrarem o meu filho. Ele sempre teve o sonho de ser bombeiro. Agora é esperar”, disse, com os olhos marejados.

Segundo o coordenador da Defesa Civil de Nova Friburgo, tenente-coronel Roberto Robadey, a maior tragédia com chuvas de Nova Friburgo aconteceu em 1979, quando 69 pessoas morreram. "Desta vez, a cidade foi toda atingida. Sobrevooei o município e vi morros que não tinham nenhuma ação do homem vir abaixo", concluiu ele. Em Nova Friburgo, a morte está em todas as esquinas.

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