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Queda do Muro de Berlim


Queda do Muro de Berlim
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Sem "laço emocional", jovens da Alemanha Ocidental sentem impactos do Muro

07/11 - 12:42 - Luísa Pécora, iG São Paulo

SÃO PAULO – A comemoração dos 20 anos da queda do Muro de Berlim é uma festa no mínimo curiosa para quem era muito jovem em 1989. Se por um lado os tempos de Alemanha dividida parecem muito distantes, por outro, o relacionamento entre cidadãos das duas partes do país mostra que os 28 anos de separação deixaram marcas profundas.


Jeannine Kritsch, hoje com 27 anos, era apenas uma criança quando o Muro caiu. Nascida em Hamburgo, na Alemanha Ocidental, ela aprendeu o que sabe sobre a vida na República Democrática Alemã (ou RDA, como era chamada a parte comunista) nos livros e relatos de seus pais.

"Não tive nenhum amigo ou parente que morasse do lado oriental, então não enfrentei a questão diretamente", afirma. Meus pais me contaram muita coisa sobre a RDA e o Muro de Berlim, mas acho que eu era muito nova para estar realmente interessada no assunto."

Arquivo pessoal
Jeannine tinha sete anos quando o Muro caiu
Jeannine tinha sete anos
quando o Muro caiu
Hoje, a curiosidade de Jeannine sobre a História de seu país é muito maior, mas a queda da barreira que separava a Alemanha ainda lhe parece um acontecimento distante. "Para a minha vida, especificamente, não é importante", afirma. "Me interesso pelo passado histórico e ainda há muito a aprender, mas não tenho uma conexão pessoal com a queda do Muro".

Hannes Kraft, 25 anos, também tem uma lembrança bastante vaga dos tempos de Alemanha dividida: se recorda, apenas, de uma detalhada inspeção no carro de sua família durante uma tentativa de cruzar a fronteira. Por não conhecer o mundo pré-1989, ele acha difícil entender completamente o significado e as mudanças causadas pela queda do símbolo máximo da Guerra Fria.

"Estamos celebrando um evento com o qual eu não tenho nenhum laço emocional, porque não me lembro dele", explica. Para Hannes, a queda do Muro de Berlim interferiu em sua vida apenas indiretamente, por ter dado início ao processo de unificação da Europa. "Esse processo me afeta muito, e por isso estou ciente da importância da queda do Muro", afirma. "Mas, para mim, é difícil imaginar como era viver com ele."

Aos 61 anos, Georg Kraft, o pai de Hannes, fala sobre a vida na Alemanha Oriental com muito mais facilidade. Ele se lembra particularmente dos esforços de sua mãe para manter contato com os familiares que deixou na RDA após seu casamento. "Ela sempre enviava alimentos a eles, principalmente café e chocolate", conta, classificando os tempos de divisão do país como "um outro mundo".

Surpreso, Georg assistiu à queda do Muro de Berlim pela televisão, e foi testemunha das mudanças trazidas pela reunificação. "Me lembro dos Trabbies (apelido dando ao Trabant, um carro típico da RDA) entrando na estrada e dos cidadãos da Alemanha Oriental chegando ao Oeste vestindo jeans e malhas que nós usávamos no final dos anos 1960", relembra. "Nós os observávamos do mesmo jeito que eles nos observavam."

Povo dividido

Vinte anos após a queda do Muro, o estranhamento entre cidadãos do leste e do oeste da Alemanha pode não tão ser tão visível, mas também não foi totalmente superado.

Hannes Kraft diz não fazer diferença entre alemães orientais e ocidentais, mas pondera que nem todos pensam assim. "Muitas pessoas ainda têm preconceito com quem vem da ‘outra’ parte do país", afirma. "Alguns cidadãos do lado ocidental se sentem superiores, enquanto alguns do lado oriental acreditam que suas conquistas não são valorizadas."

"Além disso, muita gente do oeste tem uma má impressão das áreas rurais da Alemanha Oriental, onde a extrema direita tem certa força e é aceita por grande parte da população", completa.

Jeannine Kritsch também nota a persistência da divisão ideológica nas relações entre os alemães. "Não é exatamente discriminação, mas ainda existem muitas piadas sobre as pessoas da RDA, e muita gente do oeste não gosta de pagar o chamado 'dinheiro do leste'", afirma, fazendo referência aos incentivos financeiros dados à Alemanha Oriental, que devem vigorar até 2019.

"Por outro lado, algumas pessoas do leste dizem que gostariam que o Muro voltasse, porque nos tempos do socialismo todos eram iguais, tinham as mesmas coisas e não havia tanto consumismo", comenta.

Divulgação
Com a queda do Muro, população pôde atravessar a fronteira e participar da unificação do país

Com a queda do Muro, população pôde atravessar a fronteira

Esse tipo de nostalgia assusta Peter Naumman, 75 anos, que deixou a Alemanha Oriental em 1951, dez anos antes da construção do Muro de Berlim, devido às perseguições sofridas por seu pai, dono de uma indústria. Morando no Brasil desde os 19 anos, em uma de suas viagens anuais à Alemanha ele notou que ressentimentos do passado dificultam as relações entre os alemães dentro do próprio território da antiga RDA.

"Durante uma reunião com amigos de escola, um colega que tinha dirigido uma empresa estatal durante o regime comunista foi totalmente segregado", conta Peter. "Delatores, membros da Stasi (a polícia secreta alemã), líderes políticos, todo um exército de pessoas que apoiaram os soviéticos continua vivendo na Alemanha Oriental", aponta.

No entanto, Peter é otimista quanto à possibilidade de, no futuro, todas essas tensões serem superadas. "Levará mais 20 ou 30 anos até que possamos falar de uma Alemanha realmente unificada, não somente econômica e politicamente, mas também em termos 'humanos'", aposta. "Como há um grande intercâmbio entre os jovens dos dois lados em universidades e postos de trabalho, as últimas fronteiras ideológicas cairão naturalmente."

 

Veja no infográfico como era a divisão da Alemanha e um raio-x do MuroMuro de Berlim

 

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