O setor industrial reagiu ontem à afirmação feita no sábado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que é hora de os trabalhadores reivindicarem aumentos de salário. A declaração foi durante a posse da nova diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, entidade ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, Lula fez uma generalização perigosa, porque os setores industriais têm situações econômicas diversas.
"O presidente colocou todos num caldeirão só, sem fazer distinção entre faturamento e rentabilidade", disse Aubert Neto. Na sua opinião, os trabalhadores devem exigir aumentos reais em setores onde as empresas têm lucratividade, como bancos e oligopólios de minérios de ferro e aço, entre outros. "Agora, quando se fala do setor de bens de capital de máquinas e equipamentos, onde 80% das empresas são pequenas e médias, essa análise é furada."
Segundo o presidente da Abimaq, as empresas do setor têm sofrido "uma concorrência desleal danada em vários sentidos". Ele citou que, com o real sobrevalorizado em relação ao dólar, estão chegando produtos chineses no Brasil com preços imbatíveis. Além disso, ressaltou, onde há concorrência de mais de 15 ou 20 empresas, a rentabilidade geralmente é baixa.
"Nenhuma pequena ou média empresa tem condições de repassar aumentos de insumos importantes como o aço, cujo preço subiu 50% este ano", disse, ressaltando que a mão-de-obra chega representa até 50% do custo de produção no setor.
Com data-base em 1º de agosto, os metalúrgicos querem aumento salarial acima da inflação e redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução nos ganhos dos trabalhadores, entre outras reivindicações. Os negociadores das empresas do setor de máquinas e equipamentos apresentaram contraproposta de reposição das perdas com a inflação dos últimos 12 meses. Os sindicalistas já protocolaram comunicado de greve para a bancada patronal.
"Essa foi a pior proposta que já ouvi em todas as rodadas de negociação", disse Valmir Marques, presidente da Federação dos Metalúrgicos da CUT (FEM-CUT). "O que o Lula falou nós já estávamos falando na mesa de negociações, mas a declaração do presidente da República foi muito importante para a mobilização da categoria."
Os metalúrgicos têm hoje a primeira rodada de negociação com a bancada patronal da indústria automotiva. Nos últimos anos, a categoria conseguiu aumentos reais nos salários. A Anfavea, entidade que representa as montadoras, no entanto reclama da perda de competitividade das exportações, por causa do dólar baixo, e do aumento de custos no mercado doméstico.
Alegando que a indústria tem feito esforço para aumentar a produtividade e reduzir custos, a entidade alerta que "qualquer aumento de custo um dia vira preços, seja de matérias-primas, insumos ou mão-de-obra". As informações são do O Estado de S. Paulo