Uma bandeira branca selou a união de forças entre Totvs e Datasul, competidores de longa data no mercado de software de gestão empresarial. Em coletiva de imprensa, o presidente da Totvs, Laércio Cosentino, chegou portando o sinal de trégua, destacando que o acerto com a Datasul permitirá ao grupo "ampliar a liderança regional" e "participar ativamente" da consolidação em curso no mercado de tecnologia, jogo que, conforme as empresas, ainda não terminou.
O valor da transação se aproxima dos R$ 700 milhões. A operação prevê que a Datasul fique com 14,3% do capital da Totvs e receba outros R$ 480 milhões.
Juntas, as empresas abocanharão cerca de 40% do mercado brasileiro de sistemas de gestão empresarial. A operação será analisada pelos acionistas em 19 de agosto e deverá passar pelo crivo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Baseados em pesquisas de consultorias internacionais, os executivos ressaltaram que a integração forma a maior empresa de software de gestão integrada do Brasil e a nona maior do mundo, com receitas combinadas de US$ 188 milhões em 2007, considerando o faturamento com licenças, manutenção e suporte. A receita bruta pro-forma não auditada das duas somou R$ 778 milhões nos 12 meses encerrados em março, com Ebitda de R$ 155 milhões. A transação também coloca o grupo na segunda posição em participação de mercado na América Latina.
Cosentino e o fundador da Datasul, Miguel Abuhab, hoje presidente do Conselho de Administração da empresa, afirmaram que o período de transição para a unificação das operações deve durar seis meses. Eles descartaram demissão de pessoal neste primeiro momento. "Uma empresa que vem crescendo mais de 20% ao ano necessita de novos talentos a cada dia. Além disso, o mercado está aquecido e comprador", comentou o presidente da Totvs.
Por enquanto, as empresas atuarão de forma independente, assim como seus canais de distribuição. "Num primeiro momento, as marcas competem entre si e as revendas seguem como estão. Até porque existe uma complementaridade muito grande dos produtos", explicou Cosentino. Com a unificação dos negócios, o grupo colocará como alvo médias e grandes empresas, mercado onde a Datasul tinha mais presença.
A diretoria permanece como está, garantiu Cosentino. "Não fizemos uma união para destruir valor." Em comunicado, as empresas informaram que, nos meses subseqüentes à incorporação, será aplicado um programa de eficiência. O Conselho de Administração da Totvs será ampliado de cinco para seis membros, cargo que será ocupado pelo fundador da Datasul.
A Totvs, possui um portfólio com aproximadamente 18 mil clientes,
considerando as operações de comercialização de softwares e serviços da Microsiga, da qual Cosentino é co-fundador, e das adquiridas Logocenter e RM Sistemas. Com a fusão, o número de clientes sobe a 21 mil.
Dentre os maiores desafios a serem enfrentados, na avaliação de Cosentino, estão entender a estrutura das empresas, promover a gestão das companhias e administrar as alianças feitas até agora. Além disso, Abuhab cita que a maior sinergia está nas operações internacionais das duas empresas. Os executivos não mensuraram, no entanto, os ganhos de sinergia que poderão ser aproveitados.
Os executivos asseguram que o desafio de integrar as empresas não colocará na geladeira os planos de internacionalização traçados anteriormente por Totvs e Datasul. "O jogo da consolidação não terminou. Já temos o mapeamento dos nossos mercados de interesse e tudo continua como antes", afirmou Cosentino. Os executivos chegaram a comparar o grupo à "AmBev do software", em referência ao poder de mercado da cervejaria. Mas nenhum deles quis dizer se haveria uma "Interbrew" - grupo belga que se fundiu com a Ambev - em vista.