05/07 - 11:17, atualizada às 11:38 05/07 - Ana Freitas, repórter do Último Segundo
Enquanto no Brasil se discute como limitar o uso da internet nas campanhas eleitorais, em outros países os esforços são para aproveitar ao máximo os recursos que a rede tem a oferecer para o debate eleitoral. Nos Estados Unidos, o provável candidato democrata à presidência Barack Obama apostou no uso da internet para conquistar eleitores e doações. O retorno foi rápido e surpreendeu seus opositores, que tiveram de correr atrás do prejuízo.
“Obama foi o candidato certo que surgiu na hora certa. É um político progressista que se candidatou em um momento em que a rede já estava madura e bastante desenvolvida. Ele soube utilizar as ferramentas da internet a seu favor e virou um exemplo de político ‘web 2.0’”, comenta o cientista político Sérgio Amadeu.
A interação de Obama com seus eleitores na rede virtual tem facilitado o “recrutamento” de doadores individuais para sua campanha. Desde o início das prévias, o democrata disponibilizou em seu site um cadastro para os interessados em fazer doações pontuais ou periódicas em qualquer valor até o máximo permitido por indivíduo no país, que é de US$ 2,3 mil.
A contribuição é feita com apenas alguns cliques e, em segundos, o eleitor passa a fazer parte de uma lista que já conta com mais de 1,5 milhão de doadores. A partir daí, ele receberá e-mails e mensagens em seu celular sobre as propostas e progressos do senador na corrida eleitoral, e o incentivando a recrutar amigos a fazer o mesmo “pelo país”.
O resultado concreto do exército de apoiadores do Obama há muito já se reflete nos valores arrecadados em sua campanha. Até junho, foram US$ 287,4 milhões, sendo que US$ 130 milhões deste montante partiu de pequenas doações (até US$ 200) feitas na internet. Menos da metade deste valor foi arrecadado pelo o candidato republicano John McCain que, segundo a Comissão Eleitoral Federal dos Estados Unidos, angariou US$ 111,3 milhões até o mesmo período.
Fonte de informação
O uso da internet na campanha de Barack Obama o tem ajudado a conquistar novos simpatizantes a cada dia, principalmente entre os mais jovens. Isto porque a rede tem ganhado espaço entre as principais fontes de informação dos americanos.
Segundo o Centro de Pesquisas Pew, 24% da população dos EUA usa a internet para se informar sobre a campanha eleitoral que está em curso. Na faixa etária entre 18 e 29 anos, esta porcentagem chega 42%.
Mais de um quarto (27%) dos jovens com menos de 30 anos disseram obter informações sobre as campanhas por meio de sites de redes sociais, como MySpace e Facebook. Neste último, Obama possui mais de 1 milhão de “amigos”.
“O que estamos vendo na prática é como o poder de interação da internet tem possibilitado a politização, em especial dos mais jovens. Na rede, as pessoas podem tentar convencer umas às outras e isto não é ruim, principalmente porque o poder de convencimento na internet não está concentrado em um pólo só, mas disperso entre todos”, argumenta Sérgio Amadeu.
Político presente
Segundo o cientista político, a internet exige uma exposição maior dos candidatos. “Não adianta criar um perfil em um site como Orkut ou Facebook e não responder aos comentários. Da mesma forma, um candidato que tenha Twitter precisa postar com freqüência os seus passos. Se ele não fizer isto, os eleitores vão querer saber por que não faz e onde ele está. Estas ferramentas de interação exigem uma presença mais freqüente dos candidatos”.
Além de seu site oficial, Barack Obama, tem um canal no site YouTube com mais de mil filmes, um Flickr com quase 20 mil imagens, um perfil no MySpace com mais de 410 mil amigos, e outras ferramentas que estão na vanguarda da interação virtual.
“O fenômeno do Obama nos EUA é o fenômeno da rede. Aos poucos vemos outros candidatos se destacarem graças a campanhas virtuais e independentemente de serem liberais ou não”, comenta Amadeu.
O cientista político cita o exemplo de Boris Johnson, que ganhou recentemente a eleição para a prefeitura de Londres. Político conservador, ele demonstrou que seus princípios não o impedem de estar em dia com a modernização tecnológica e lançou um canal oficial no YouTube para dialogar com seus eleitores.
“Mesmo os candidatos que não entendem nada de internet serão orientados por seus assessores a entrarem na rede, porque quando um perceber que seu rival está ganhando espaço na internet, ele vai querer ir atrás das mesmas ferramentas”, diz Sérgio Amadeu.
Limitações no Brasil
Em março, o Tribunal Superior Eleitoral divulgou a Resolução 22.718 sobre as condutas que serão permitidas na campanha política deste ano. O documento limita a propaganda na internet ao site do candidato, o que impede o uso de comunidades virtuais e demais sites de relacionamentos.
Em junho, os ministros TSE discutiram se deveria haver alguma regulamentação específica para a propaganda na internet. Na época, optou-se por deixar a resolução como estava, ou seja, equiparando a propaganda na internet à campanha nas demais mídias de massa e avaliando possíveis irregularidades caso a caso.
"O Direito não tem como dar conta desse espaço", afirmou o presidente do TSE, Carlos Ayres Britto na ocasião. "É um espaço que não nos cabe ocupar. Deixemos os internautas em paz", acrescentou.
Para Sérgio Amadeu, as atitudes do Tribunal têm sido incoerentes. “Não tem sentido a justiça eleitoral dizer que não dá para decidir sobre a internet e, ao mesmo tempo, manter a resolução que limita o uso da rede a um único site por candidato”.

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