'NY Times deve abrir site para nosso conteúdo entrar na rede Por Rodrigo Martins São Paulo, 04 (AE) - Reflexo dos novos tempos: o diário mais influente do planeta agora quer que seus leitores tenham acesso a suas notícias fora do jornal. E não é só fora de suas páginas impressas, mas também fora de seu site.
Na semana passada, o norte-americano "The New York Times" anunciou que quer ter seu conteúdo presente em blogs, lojas virtuais e até em mapas do Google Earth. E isso ainda neste ano.
A idéia é "abrir o site do Times para o conteúdo fazer parte da internet". Como? Listas de eventos, resenhas de restaurantes e receitas de culinária já publicados estão sendo organizados para poderem ser "combinados" com outros sites. Um exemplo? Você acessa o Google Earth e vê os restaurantes que o jornal já resenhou em um determinado local. Se ficar interessado, pode clicar em um link para ler se o estabelecimento foi bem avaliado ou não.
"Estamos em transição para, de site de notícias, virarmos uma plataforma que distribui notícias", explicou o responsável pela área de tecnologia do Times, Marc Frons. Em uma decisão pioneira, o jornal anunciou na última quarta-feira que liberará os códigos que possibilitam acesso a seu conteúdo, conhecidos como APIs, para programadores externos - e também do jornal - desenvolverem as "combinações mais diversas". Onde isso vai parar? "Tudo depende da capacidade e da imaginação da comunidade de desenvolvimento e do próprio 'The New York Times'", diz Frons.
Essa iniciativa se soma a outras que estão fazendo do tradicional jornal norte-americano uma das maiores referências na web mesmo com a mudança de hábito do público, principalmente os mais jovens, que consomem cada vez mais informação em blogs e redes sociais.
O "Times" está presente no Facebook e em breve também poderá ser acessado no MySpace e no Orkut, por exemplo. "Temos de ir aonde as pessoas estão", diz. "Os jornais não podem mais ser só jornais. Têm de ser produtores de conteúdo para todas as mídias", afirma Frons.
AE - Como surgiu essa idéia de disponibilizar as APIs do site do Times?
FRONS - Em setembro eliminamos a necessidade de assinatura, que exigia que as pessoas pagassem para acessar o acervo. O site passou a ser mantido por anúncios. Agora, com a abertura dos códigos APIs, queremos distribuir e combinar o nosso conteúdo a outros endereços da web, fazer com que ele se torne parte de toda a rede. Ou seja, utilizar todos os recursos que a rede tem para "combinar" nossos conteúdos.
AE - Como isso acontecerá na prática? Será possível ter as notícias do jornal no Google Maps, por exemplo?
FRONS - Os mapas são uma das aplicações principais. Mas iremos além. Será possível selecionar, filtrar, visualizar, combinar e personalizar notícias e informações já publicadas. Dará ainda para combinar nossas informações com conteúdo gerado pelo usuário.
AE - Isso mudará a forma como o usuário acessa o site do Times ou é mais para colocar as notícias do Times em outros sites?
FRONS - Em um primeiro momento não mudará a forma como o site é acessado. Mas permitirá utilizar parte do conteúdo de maneiras que não são possíveis hoje.
AE - Como? Em outros sites, como em blogs ou sites de compras?
FRONS - Sim. Um blog poderá trazer links para as nossas notícias relacionadas com um post publicado. Se o leitor se interessar, clica e acessa nosso site. Em uma loja virtual, por exemplo, podemos combinar o nosso conteúdo aos produtos à venda. Quando a pessoa for comprar algo, poderá clicar em um link para ver a resenha do produto. Mas isso depende de acordos comerciais. Para blogs não iremos cobrar, mas, para grandes portais, aí sim haverá um modelo de negócio.
AE - Vocês disseram que, em um primeiro momento, serão liberados arquivos relativos a eventos, restaurantes e receitas. E o resto?
FRONS - Temos uma lista extensa de APIs sobre as quais já estamos trabalhando. Para o resto do conteúdo, aprenderemos com o processo para definir se abrimos tudo ou não. Ninguém sabe exatamente a resposta. Vamos ver como funciona, avaliar como as pessoas e a comunidade de desenvolvedores reagem.
AE - Esse anúncio vem de encontro a outras ações do jornal para levar seu conteúdo pela web afora. Vocês já estão no Facebook e devem estar em breve no MySpace e no Orkut... O objetivo é resgatar o público, principalmente os jovens?
FRONS - Você precisa ir aonde o usuário está. É preciso se adaptar aos locais onde ele consome notícias. Se eu tivesse 24 anos e a forma como me informasse fosse por links enviados por amigos no Facebook, o jornal também precisa estar lá.
Mas ainda não há uma grande demanda por notícias do Times no Facebook (são só 1,5 mil usuários ativos no serviço).
Creio que nenhum desses aplicativos será grande isoladamente. Uma das razões de estarmos abrindo nossas APIs é que precisamos de múltiplas entradas para os nossos conteúdos. Você não pode fazer aliança só com o Facebook, o Orkut ou outro grande site. Você precisa estar em todos os lugares.
AE - Se o usuário acessa as notícias em outros sites e não no site do Times, isso é lucrativo?
FRONS - Muitos aplicativos como os do Facebook e do MySpace são apenas uma forma de as pessoas se interessarem pela notícia e entrarem em nosso site. Isso por duas razões: 1) temos de ter dinheiro para conseguir pagar os jornalistas; 2) acho que no MySpace as pessoas não vão querer ler um texto completo.
AE - Mas haverá uma mudança de comportamento do leitor?
FRONS - É muito cedo para dizer. Há leitores que não irão mais até o site do jornal e acessarão nossas notícias de forma mais distribuída. E haverá pessoas que gostarão de ir diretamente ao nosso site e ver o que o "New York Times" tem a dizer em sua página principal. Queremos mudar a forma como apresentamos as notícias e envolvemos as pessoas para nos mantermos relevantes.
Um dos jeitos de fazer isso é apresentando-as de forma agregada: não só o conteúdo original do jornal, mas também os julgamentos dos seus amigos. Continuaremos a demonstrar nosso valor na medida em que temos sensibilidade editorial para organizar as informações mais relevantes e mostrar às pessoas o que é importante pensar, ler e aprender.
AE - Os jornais precisam buscar esse tipo de inovação hoje?
FRONS - Sim, caso não procurem já estão mortos. Os jornais não podem mais se ver como jornais, mas como provedores de conteúdo e notícias para qualquer mídia e plataforma. O desafio é encontrar um modelo econômico para o meio online. Porque sabemos que o impresso ainda leva a maioria dos anunciantes, no nosso caso 99% vem de lá. Mas o impresso está em declínio. Precisamos que o online cresça muito mais rápido. Está muito claro que a internet será o principal meio de anúncios para a mídia.