Fazer do Google um aliado é a intenção de quem decide criar uma bomba Google (Google Bomb, em inglês). Apesar do nome, a idéia não está relacionada a nenhum movimento terrorista.
É mais uma tentativa de chamar a atenção online. A idéia consiste em associar, por meio de hiperlinks, determinado termo a um site que não esteja necessariamente vinculado a ele. Um exemplo: à medida em que muitos linkam a palavra "vergonha" à página oficial do Senado, o mecanismo de buscas do Google passa a entender que as pessoas consideram que o Senado está relacionado ao termo "vergonha" e sugere esta página como resultado na busca pela palavra.
O exemplo citado é real e foi criado pela blogosfera brasileira na época em que o presidente do Senado, Renan Calheiros, teve sua cassação rejeitada após se envolver em uma série de escândalos políticos. É um caso de bomba bem sucedida: ficou, desde então, em primeiro lugar nas buscas pelo termo vergonha na versão brasileira do Google. Caso o internauta clique no botão "Estou com sorte", ele é direcionado automaticamente à página do Senado.
Carlos Felix Ximenes, diretor de comunicação do Google do Brasil, entende que usar desse artifício é um comportamento natural dos internautas. "É uma manifestação espontânea da comunidade virtual, geralmente com fins políticos ou humorísticos", diz. Segundo Ximenes, o Google não altera resultados de buscas para beneficiar ou prejudicar as bombas. A ação da empresa só acontece se houver casos em que o Google considera que a bomba "passa dos limites do bom senso".
Como ocorreu esse ano. Quem buscasse as palavras "atriz gorda" na versão brasileira do Google se deparava com uma sugestão que dizia "Experimente também: Preta Gil". Mas isso não acontece mais. "Tiramos a referência na busca - é um dos casos que passa do limite do bom senso", continua Ximenes.
No fim do fevereiro, blogueiros de todo o Brasil decidiram usar a idéia para ajudar uma campanha do jornalista Luis Nassif, feita em seu blog, contra a revista "Veja". Daniel Bender, blogueiro do site www.benderblog.com que propagou a idéia da bomba Google para esse caso, percebeu que a página pessoal do Nassif não tinha uma boa configuração para ser detectada por buscadores, e então teve a idéia de recorrer ao bombardeio.
"O Google é um mecanismo bastante inteligente. Não fizemos nada além de facilitar a navegação dos usuários. Considero que tenha sido um serviço útil para a sociedade", julga. Essa não é a primeira bomba Google a que Bender adere: ele já participou da campanha da vergonha do Senado e de outra bomba que relacionava a frase "político honesto" a um site que simulava uma página de erro da internet dizendo que esses políticos não existem.
Bender não acreditava que a repercussão seria tão grande. Nem mesmo o próprio jornalista tinha muita pretensão com a bomba. "Eu nem sabia o que era isso. Pedi colaboração de meus leitores no caso da 'Veja', mas a manifestação foi espontânea da parte deles. O resultado foi surpreendente. É inacreditável o que o trabalho em rede pode fazer", diz Nassif. Até o fechamento da edição, o blog do jornalista ocupava a quarta posição quando se procurava o termo"veja" no www. google.com.br.
PROTESTO - "Essa é uma forma de protesto legítima. Mas é preciso ter um mínimo de ética, senão detonamos a força que temos", diz Lucia Freitas, jornalista e blogueira que coordenou a seção Campus Blog da versão brasileira do Campus Party. "Esse recurso mostra a força da web, uma força nossa", afirma.
Em janeiro de 2007, o Google anunciou em seu blog oficial que aprimorou seus algoritmos de busca para "minimizar o impacto de muitas bombas Google". "Com o tempo, muitas pessoas começaram a assumir que as bombas refletiam a opinião do Google sobre determinado assunto ou que o site manipulou manualmente os resultados de determinadas pesquisas. Isso não é verdade, e se tornou necessário tentar corrigir essas percepções errôneas", diz a nota assinada por um dos executivos da empresa.
A partir de então, o Google tornou disponível uma página na internet em que usuários podem denunciar outros casos de bombardeios desse tipo - encontrada em www.tinyurl.com/zjjjz (página em inglês).
ALVOS - A idéia de influenciar o resultado das buscas do Google não é nova. Em 2005, quando uma dessas bombas foi bem sucedida ao relacionar a frase "miserable failure" (fracasso miserável, em inglês) à biografia oficial do presidente norte-americano George W. Bush, o Google a admitir a existência desse recurso em seu blog oficial.
"Artifícios podem distrair alguns, mas eles não afetam a qualidade do nosso serviço de buscas no geral", dizia a nota escrita por um executivo da empresa. Outro caso surgido na blogosfera norte-americana em 2006 relacionava o nome de um senador do Estado de Arizona à página de um jornal independente crítico a ele.
Outros casos relatados na Internet já vincularam o termo "liar" (mentiroso, em inglês) ao ex-primeiro ministro britânico Tony Blair; a gíria "clueless" (sem idéia, em inglês) a um político neozelandês e a expressão "político falso" à presidente das Filipinas Gloria Arroyo.