19/09 - 14:07 - Agência Estado
SÃO PAULO - No meio do mar, a milhas de distância de qualquer sinal de terra, dois velejadores encharcados, a bordo de um catamarã, comunicam-se com o mundo. Abrem o notebook blindado contra quedas e água, posicionam a antena receptora de internet via satélite, e, tranqüilamente, batem papo via Skype com as suas respectivas namoradas, que ficaram em solo firme.
A cena pode parecer um tanto estranha. Mas não para os aventureiros Roberto Pandiani, de 50 anos, e Igor Bely, de 24. Na última terça-feira (18), eles partiram para uma expedição que os levará, no veleiro Bye Bye Brasil, até a Austrália. Serão 9 mil milhas percorridas pelo Oceano Pacífico a partir do Chile. E tudo com muita tecnologia.
Os artefatos hi-tech vão desde localizadores GPS até iPod, notebook, celular e, vejam só, a comida. "A refeição será liofilizada (alimento em que a água é drenada). Ela fica com 30% do peso. Depois, é só jogar água quente para ter um frango cozido, por exemplo", diz Pandiani. A água doce será obtida por um dessalinizador manual.
Quanto ao arsenal digital, ele não estará no barco à toa. "Tudo o que levaremos é essencial", diz Pandiani. Toda a viagem poderá ser acompanhada pela web, TV e rádio. Pelo site www.yahoo.com.br/travessia, por exemplo, os dois publicarão, diariamente, textos, fotos e vídeos. Daí o notebook, a câmera fotográfica e a filmadora.
Bely é quem fará os cliques e os vídeos. Haverá uma fotógrafa e um cinegrafista profissionais em alguns momentos, mas em terra firme. "Farei cenas do cotidiano, como a preparação da comida e a subida do mastro." A viagem também renderá boletins para a Rádio Eldorado FM, gravados via celular, e reportagens para o Esporte Espetacular, da Rede Globo. "As pessoas poderão participar da experiência", diz Pandiani. "Se ela não fosse registrada, seria como se não tivesse ocorrido. Ficaria só para mim, na memória." E para transmitir esse material só de um jeito: via satélite. A viagem terá longos dias em alto-mar, sem paradas em terra. Por isso, o notebook receberá o sinal da web via satélite. O celular também funcionará assim."É a primeira vez que usamos a web a bordo", diz Pandiani, que já faz travessias do tipo desde 1994. E há uma agravante: não há cabine no barco - eles ficarão expostos a Sol, chuva e água, muita água. "Será preciso um tempo de adaptação. No começo, acho que ficaremos enjoados ao usar o notebook." Além de mandar conteúdos, a tecnologia também será uma aliada na navegação. Pela web, eles terão acesso à previsão do tempo. "Se houver uma tempestade, é muito melhor saber quatro dias antes do que na hora", diz Pandiani. E localizadores GPS - serão três, para não correr o risco de ficar sem por defeito - mostrarão a rota da viagem. Haverá ainda um dispositivo de segurança, carregado por cada um dos dois no bolso da jaqueta. "Se houver um acidente, basta apertar um botão que a Marinha é automaticamente avisada para o resgate", diz Pandiani.
E como ninguém é de ferro, eles também pensam em diversão. Serão 160 dias em alto-mar. "E sempre há momentos de tédio", diz Pandiani. Por isso, levarão um iPod com 14.505 músicas. Com uma caixinha de som externa, ouvirão reggae, forró e música clássica.
Mas a água não irá danificar as traquitanas? "Usaremos caixas e malas estanques, que protegem os aparelhos", diz Pandiani. "Os eletrônicos podem até cair no mar. Não entra água." Outro problema: como terão energia para alimentar os aparelhos? O barco contará com painéis de energia solar e um dínamo que, com o movimento da água, roda e gera corrente elétrica. Com isso, será possível carregar baterias. Isso não significa dizer que poderão usar sempre os eletrônicos. "Como dependemos de elementos exteriores, como o Sol e a velocidade do vento, não temos como prever se conseguiremos sempre gerar energia. Em um dia nublado e sem vento, por exemplo, não dá", diz Bely. "Fiz cálculos: vamos usar tantas horas por dia o notebook, o iPod, a câmera, etc., com a preocupação de poupar a bateria."
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