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Vale até passar cheque sem fundo

11/04 - 15:13 - Agência Estado

Vale até passar cheque sem fundo Por Gustavo Miller "Como assim, a tecnologia me estressa? É sem ela que eu fico estressado!" O autor da pérola, típica de um tecnoestressado, é o analista Guilherme Gustavo, de 27 anos. Além de não desgrudar de seus amigos eletrônicos, ele é um consumidor compulsivo de tecnologia.

Só no ano passado Guilherme teve nada menos que seis celulares diferentes!"Chega algo novo, eu compro. Enjôo muito fácil", diz.

Seu xodó atual é um BlackBerry, que ele divide com mais dois telefones móveis: "Não vivo mais sem ele. Se quebrar, eu me endivido mas compro outro rapidinho." Quem já estourou sua conta bancária por uma traquitana hi-tech foi a engenheira Viviane Fonseca. Quando ela viu nas vitrines o novo smartphone iPack, não teve dúvidas: mandou ver mesmo sem ter dinheiro em caixa. "Tive que cancelar a compra porque meu cheque voltou", ri.

Para driblar a falta da grana, Viviane descolou outro cartão de crédito. "Hoje em dia a gente já compra algo pensando no que vai ter depois. Sinto-me sempre defasada", diz. André Malbergier, psiquiatra do Departamento de Medicina da USP, diz que o perfil desse tipo de tecnoestressado é igual ao de um consumista compulsivo. Segundo ele, o que leva as pessoas a torrarem rios de dinheiro por um novo aparelhinho é aquela vontade imensa de ter o novo em mãos. "Não é a busca pela tecnologia, é o poder da posse. Muitas vezes esse consumidor adquire uma tecnologia que nem vai usar depois", diz.

Viviane jura usar "tudinho" o que compra. O seu Pocket PC ela usa para acessar a web, via celular, de onde estiver - "No último mês a conta foi de R$ 700!" - e também como GPS no carro. Home theater ela tem dois: um na sala de estar, junto da TV de LCD, e outro conectado ao PC, onde ela vê seus seriados prediletos. "Confiro os episódios de Lost três horas depois que eles foram exibidos lá fora", gaba-se. "O ruim é que costumo usar o PC até às duas da manhã e depois tenho que acordar às seis...", confessa.

Existe até os que são solidários no vício. Os namorados Elton Barreto, de 23 anos, e Marina Pechiai, de 22, costumam se presentear com acessórios que incrementem seus videogames. Loucos pelo game de futebol Winning Eleven, Marina já deu ao amado vários joysticks, cartões de memória e até jogadores virtuais. Como Barreto participa de competições na casa de games Digital Stadium (www.digitalstadium.com.br), para montar um time repleto de craques às vezes é preciso "comprar" jogadores de outros gamers. "Ela me deu cinco de aniversário, e pagou R$ 180. Foi o melhor presente que já recebi!", diz.

MOVIMENTO ANTITECNOLOGIA Um movimento que busca se contrapor a todo esse exagero hi-tech é o ShutDown Day (www.shutdownday.org). Criado por dois canadenses, a idéia é que por um dia as pessoas não liguem seus computadores. O ato aconteceu em 24 de março, e teve no Brasil o apoio do Jornal de Debates (www.jornaldedebates.com.br), editado pelo jornalista Paulo Markun. "O objetivo é alertar. Ainda mais em um País onde é a minoria que tem acesso à tecnologia", diz.





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