Educador. Certamente essa atividade não consta do currículo de Laércio Cosentino, presidente da TOTVS, mas deveria, pois sua trajetória empresarial confunde-se com a história da informática no Brasil.
Quem vê a atual complexidade e penetração da tecnologia na vida das pessoas é incapaz de imaginar que no início da década de 80, ainda estudante de engenharia da Politécnica, na Universidade de São Paulo, Cosentino já pensava em abrir um negócio próprio junto com a chegada dos primeiros microcomputadores ao varejo brasileiro.
"Foi uma grande adaptação. Você não que tinha que vender só o produto. Tinha que vender o conceito. Convencer o cliente a comprar um microcomputador e a aposta que essa tecnologia seria um sucesso e lhe traria retorno." O ano era 1983, e Cosentino estava, então, com 23 anos. Com tão pouca idade, o jovem teve a coragem de montar uma companhia e em um ambiente absolutamente novo. O desafio atendia a uma das aparentes obsessões de Cosentino: encontrar soluções. No caso, o objetivo era fazer o negócio dar certo. Desde 1978, quando ingressou na faculdade, ele começou a trabalhar num birô de processamento de dados - quando esse conceito ainda significava organizar os dados de uma companhia. O escritório era de um amigo e prestador de serviços para seu pai, Ernesto Haberkon, o pai da gestão empresarial por software no País. Cosentino ingressou como estagiário de programador e, em cinco anos, propunha sociedade ao dono da empresa num novo negócio, que daria origem a Microsiga. Nesse intervalo, alcançou o posto de diretoria com espaço que o chefe deu para a capacidade administrativa que exibiu. Ao presenciar o surgimento dos microcomputadores, Cosentino percebeu que havia ali uma oportunidade. Com isso, tornou-se o principal empresário brasileiro do setor de tecnologia. "São poucas as empresas que nasceram com a microinformática. Isso permitiu que desenvolvêssemos as soluções do zero." Para criar as soluções que buscava, teve que praticar uma atividade que gosta muito, a de criação. "Eu sempre gostei de criatividade. Quando era pequeno, tinha um lado meu que gostava de montar eletrônicos." Embora trabalhar com processamento de dados não fosse seu objetivo de vida ao optar pela engenharia, Cosentino viu nesse setor a possibilidade de praticar constante e independentemente do correr do tempo o que mais gosta. "A informática está sempre desafiando você a buscar soluções por meio de um equipamento." O lado administrador pôde ser exercitado ainda infância. Com a morte do avô paterno, o menino Laércio, durante as férias, passou a ajudar a cuidar de uma loja herdada pelo pai na baixada santista. Entre os nove e os quinze anos, ele teve a oportunidade de experimentar suas capacidades na área administrativa. "Era uma brincadeira e, ao mesmo tempo, um ponto importante para aprender a fazer negócio. Foi quase um laboratório." Então, Cosentino teve a chance de, com muito pouca idade, conseguir juntar os conhecimentos adquiridos em informática ao seu lado empreendedor. Tudo isso junto com o curso na Politécnica. "Eu começava às sete e só parava às nove da noite. Tinha dia que ia até meia-noite." Ainda assim, ele jura que não deixou de aproveitar o período universitário. "Escolhia os programas. Não precisava ir todos os dias ao Rei das Batidas", tradicional bar próximo à saída da Cidade Universitária; O segredo foi dosar a folia e otimizar o tempo. Nas aulas, prestava bastante atenção para reduzir a necessidade de estudo mais à frente. "Não era uma questão de decorar, mas de entender." No começo do negócio, Cosentino viu-se na posição de treinador e professor. "Era preciso formar as pessoas. Não tinha onde aprender. A vida era assim, aprendendo e ensinando, aprendendo e ensinando...". Pelo jeito, além de bom empreendedor, empresário e engenheiro, o executivo é também um bom professor. Em pouco mais de 20 anos, seu negócio tornou-se a maior empresa de software da América Latina, a TOTVS. A companhia possui atuações na Argentina, México, Uruguai, Chile, Paraguai e Porto Rico e reúne diversas marcas provenientes de aquisições realizadas pela Microsiga ao longo dos últimos três anos: Logocenter, RM Sistemas e agora a nova área de negócios, a TOTVS-BMI.
A única meta da juventude deixada para trás por Cosentino foi a de se aposentar aos 30 anos. Com mais de 40, mostra-se está absolutamente integrado ao universo TOTVS, que em latim significa totalidade e surgiu como solução de nomenclatura para a reunião de marcas que detinha junto com a Microsiga. Para administrar essa aparente pluralidade de empresas, a estratégia de Cosentino é a mesma: valorização das pessoas, uma vez que é delas que nascem as soluções. Depois de crescer lateralmente, ou seja, agregando negócios com foco semelhante ao seu, o objetivo da companhia agora é expandir verticalmente sua atuação, com soluções específicas para setores da economia nacional. Enquanto estuda as possibilidades, Cosentino segue na prática empresarial de vislumbrar estratégias e produtos para a TOTVS. Além disso, ele observa pessoas e negócios. Calmo, o executivo gosta de praticar a perspicácia como ouvinte. "Falar é fácil. Difícil é ouvir e pensar." Mas, dada a capacidade de vislumbrar o futuro, quem ouve Cosentino não consegue imaginar os planos que se passam em sua cabeça. Nem mesmo, com que naturalidade ele levou sua companhia ao que é hoje. A carteira de clientes? Quase 1,5 mil. Realmente, quem apostou no sucesso do microcomputador optou pelo caminho correto. Em 2006, a TOTVS teve lucro líquido de R$ 55,9 milhões, após aumento de 53,1% sobre 2005. O faturamento líquido do ano passado alcançou R$ 376,3 milhões, o que representa um crescimento de 20,7% frente ao exercício anterior.