04/01 - 19:53 - Carta Capital
Se na década de 90 a pirataria monopolizou as preocupações da indústria fonográfica mundial, neste início dos 2000 a distribuição desenfreada de imagens via internet é que se espalha irremediavelmente, afetando em especial as redes de televisão, de modo análogo ao que já vinha acontecendo com as gravadoras.
O YouTube (www.youtube.com), líder entre os sites de compartilhamento livre e gratuito de vídeos, é a bola da vez no Brasil, onde uma liminar obtida, na quarta-feira 3, pelos advogados de Daniela Cicarelli determinou que seja bloqueado definitivamente no site o acesso a imagens em que a apresentadora aparece supostamente fazendo sexo com o namorado numa praia.
A medida parece ser de difícil aplicabilidade prática, já que usuários do site têm republicado constantemente o vídeo de Cicarelli, e ajuda a deslocar o foco para temas como a invasão de privacidade e o círculo vicioso das celebridades. Enquanto isso, numa linha paralela a essa, os subterrâneos do YouTube ocultam um debate mais próprio ao mundo da cultura, mas também limítrofe entre a arte e a contravenção, entre os avanços culturais e o crime.
É que rapidamente o site vem se tornando um acervo monumental de imagens raras (e às vezes semi-inéditas), que contam, por elas próprias, a história da música popular. No Brasil, de Noel Rosa tocando com o Bando dos Tangarás na década de 1930 ao rap de protesto dos Racionais MC’s no fim do século XX, tudo parece estar traduzido em imagem e som no YouTube.
Além de resgatar momentos de valor histórico inestimável, como cenas de Carmen Miranda em Hollywood ou do advento dos músicos tropicalistas nos festivais da canção do fim dos anos 60, a rede abriga, também, flagrantes às vezes constrangedores, mas que ajudam a entender lados obscuros da personalidade de seus ídolos, muitas vezes escamoteada pela mídia tradicional.
Exemplo admirável pode ser encontrado digitando-se os termos “João Gilberto” no campo de busca do YouTube. Ali aparecerá, entre muitas outras, a imagem raríssima do artista, ainda desconhecido, tocando violão em acompanhamento à cantora Elizeth Cardoso, antes da eclosão da bossa nova. Mas aparecerá também o contraponto do gênio, em cenas impagáveis em que ele briga abertamente com o público, chegando a abandonar o show numa delas. “Não faz que eu vou embora, hein?”, e “este ‘uh’ aí é um idiota que está fazendo”, reage o artista baiano a supostas vaias numa apresentação em Salvador.
Confira a íntegra da reportagem na edição impressa de Carta Capital, que chega às bancas nesta sexta-feira.
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