Zelaya volta de surpresa a Honduras quase três meses depois de golpe

Luis Alfredo Martínez. Tegucigalpa, 21 set (EFE).- O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, fez hoje um retorno inesperado ao país quase três meses depois de ter sido derrubado e anunciou que seu objetivo é dialogar para superar a crise causada por sua saída do poder.

EFE |

"Sou um homem pacífico, dialogo, pratico a não violência", afirmou Zelaya em suas primeiras declarações à imprensa após seu retorno a Honduras, na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa.

O líder deposto agradeceu a Embaixada do Brasil por apoiá-lo "de uma forma tão honesta, tão sincera", assim como ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

Zelaya pediu a seus simpatizantes para que sigam rumo aos arredores da embaixada brasileira com o objetivo de "nos proteger e evitar qualquer mal-entendido".

"Vim para dialogar de frente", acrescentou o presidente deposto, enquanto milhares de simpatizantes se amontoavam do lado de fora da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa.

Sobre um eventual convite para conversar do Governo de Roberto Micheletti, designado pelo Parlamento como presidente do país depois de sua derrubada em 28 de junho, Zelaya ironizou: "Não espero essa gentileza em tão pouco tempo".

"Não tenho medo da Justiça. Se há processos a responder, eu respondo", afirmou o líder deposto em relação às ordens de prisão contra si.

Zelaya é acusado por crimes políticos relacionados à consulta popular que conduziria em 28 de junho sobre a instalação de uma Assembleia Constituinte.

O pleito foi frustrado por sua expulsão do país pelas mãos dos militares e tinha sido declarado como inconstitucional por vários órgãos do Estado.

O Governo de Micheletti sustenta que Zelaya não sofreu um golpe de Estado, mas sim que os militares o tiraram do poder por um mandato judicial por causa do processo aberto pelo Ministério Público contra ele por promover a consulta popular.

Zelaya também tem ordens de captura por falsificação de documentos, fraude e abuso de autoridade pela emissão de um decreto - ilegal, segundo o Ministério Público - para contratos de publicidade por 27 milhões de lempiras (US$ 1,4 milhão).

Segundo o presidente deposto, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, e comissões das Nações Unidas chegarão em breve a Honduras "para iniciar o diálogo".

O diálogo "tem que melhorar" sobre a base do Acordo de San José proposto pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias, o mediador da crise política em Honduras, disse Zelaya.

"O gesto de Óscar Arias foi traído pelos golpistas. Nunca levaram a sério suas propostas", afirmou o líder deposto.

O Acordo de San José estabelece a restituição condicionada de Zelaya no poder, um Governo de reconciliação e anistia política, entre outros pontos.

Diversos países já advertiram que, caso Zelaya não seja restituído, não reconhecerão o Governo hondurenho que vier a ser escolhido nas eleições de 29 de novembro e que tomará posse em 27 de janeiro de 2010.

Zelaya agradeceu às Nações Unidas, à OEA, a União Europeia (UE) e a vários países e blocos pelo apoio dado desde o golpe que o tirou do poder.

Sem dizer quando entrou em território hondurenho, o presidente deposto disse que fez "mil proezas" e um périplo de quase 15 horas para voltar ao seu país.

As primeiras versões sobre o retorno de Zelaya foram dadas por dirigentes do movimento de resistência que apoia sua restituição, os quais pediram a seus simpatizantes para que se reunissem em frente ao escritório das Nações Unidas em Tegucigalpa, onde o líder deposto estaria.

No entanto, a ONU negou que Zelaya estivesse em suas instalações, enquanto o Governo de Micheletti assegurava que o presidente derrubado sequer estava em solo hondurenho. EFE lam/bba

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